Ibovespa afunda com tensão política e dólar bate R$ 5,30

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

08/09/2021

O Ibovespa iniciou a tarde desta quarta-feira acelerando o ritmo de queda, testando a faixa dos 114 mil pontos, em meio à aversão ao risco por causa do cenário político local, o que eleva as incertezas no âmbito macroeconômico. Os investidores reduzem a exposição ao risco, com ordens de stop loss (perda máxima aceitável) e presença maior dos estrangeiros na ponta vendedora.

A crise institucional, na visão de investidores, deve colocar ainda mais obstáculos em uma agenda de reformas já morosa e dificultar a negociação de temas importantes para o futuro da economia no curto prazo, como a solução para o pagamento dos precatórios.

Perto das 15 horas, o Ibovespa caía 2,81%, aos 114.556 pontos, depois de recuar até os 114.180 pontos, na pontuação mínima do dia. O volume financeiro somava R$ 16,9 bilhões, projetando giro de R$ 25 bilhões até o fim do dia. Segundo operadores das mesas de renda variável, as instituições cujo perfil de clientes é estrangeiro atuam mais fortemente nas ordens de vendas das ações de maior peso no índice (blue chips). Os papéis dos bancos caíam mais de 4%, Petrobras exibia perdas de 3%, enquanto Vale cedia ao redor de 1,7%.

O dólar também sente os reflexos e tinha alta de 2,24% no mesmo horário, a R$ 5,2922, após tocar máxima de R$ 5,3091.

“Não há dúvida de que o Brasil está barato, mas a possibilidade dos atos de ontem piorarem a relação entre o governo e o Congresso, faz o mercado entender que a partir de agora os conflitos vão prejudicar a economia e o ritmo das reformas”, explica o chefe da mesa de renda variável de uma banco estrangeiro. Para ele, o risco de piora do ambiente doméstico “é grande”, o que exige mais prêmio de risco no mercado.

Com isso, o Ibovespa continua testando importante suporte nesta sessão, aos 114,9 mil pontos, observa em relatório o Itaú BBA. “Se perder essa região, o índice à vista poderá estender movimento de queda, em direção aos 110,9 mil, 109,3 mil e 107,3 mil pontos, respectivamente”, comenta o analista técnico Fábio Perina em relatório.

No mercado de câmbio, os investidores avaliam ainda que o pregão de hoje é de fortalecimento do dólar, em meio a uma recalibragem de expectativas dos investidores em relação aos efeitos da pandemia da covid-19. Segundo um estrategista de uma grande corretora local, o viés externo, a reação dos agentes políticos às manifestações de ontem e o noticiário de hoje, que traz protestos de caminhoneiros fechando algumas estradas no interior do país, se somam para explicar o comportamento defensivo dos agentes.

Em sua avaliação, é difícil precisar o que assusta investidores em relação ao desfecho de ontem – se o risco de um impeachment, de paralisação dos trabalhos em Brasília ou seus desdobramentos para a corrida eleitoral do ano que vem. “Mas deixou um gosto ruim de incerteza na boca do povo”, acrescentou.

Em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília, Bolsonaro manteve o tom dos discursos de ontem. Questionado por um dos presentes se as manifestações teriam alcançado o objetivo de dar “fotografia para o mundo” do apoio para sua pauta entre a população, o presidente respondeu: “A gente vai buscar solução para o caso, não é fácil mudar uma coisa que está há décadas incrustada no Poder. Alguns querem que eu faça assim e resolva o assunto, ontem eu era mais um na multidão.”

Ele tentou se eximir da responsabilidade pela inflação em alta e criticou partidos. “Dois partidos políticos fazendo nota agora e me atacando e falando do preço do combustível e dos alimentos, mas o que os partidos fizeram no ano passado a não ser apoiar as medidas dos governadores? Tem que ter uma consequência, vai ficar em casa? Tem que ter uma consequência.”

Com Bolsonaro adotando um tom de agressividade nos discursos nos atos a favor de seu governo ontem, o real deve ter uma rodada de enfraquecimento, avalia Brendan McKenna, economista internacional e estrategista de câmbio do Wells Fargo. “Acho que, à medida que o Bolsonaro se torna mais agressivo com o Supremo Tribunal Federal e outras instituições no Brasil, a moeda provavelmente ficará sob pressão”, diz o profissional, que está baseado em Nova York.

De acordo com McKenna, as manifestações do 7 de Setembro e a preparação para as eleições presidenciais de 2022 “acabarão resultando em um real mais fraco”. “As manifestações poderiam ter piorado muito do ponto de vista da segurança, e felizmente isso não aconteceu, mas acho que, se Bolsonaro continuar a pedir a seus apoiadores para se manifestarem a seu favor, as condições podem se tornar mais hostis”, diz economista do banco americano.

“Caso esse cenário se concretize, a venda generalizada de reais pode ser bastante acentuada. A moeda já é frágil, mas o mercado de juros poderá ficar igualmente fragilizado”, aponta ele. Para McKenna, conforme a moeda brasileira se enfraquece, não seria tão surpreendente se os mercados brasileiros de juros e de dívida soberana também experimentassem um processo de deterioração.

“Vários partidos que estão ou estavam no governo começaram a se manifestar a favor do impeachment. O fato de o Rodrigo Pacheco ter suspendido as sessões do Senado nesta semana é um exemplo do que a gente pode viver até o ano que vem: um país parado e sangrando, precisando de reformas”, afirmou o gestor de renda variável da Galapagos Capital, Ubirajara Silva. “Com o Brasil, estamos muito preocupados. É difícil ficar otimista com a bolsa brasileira com todo esse cenário, especialmente com as perspectivas de inflação alta e crescimento baixo para os próximos meses”, afirma.

No mercado de juros futuros, as taxas exibiam avanços firmes, mais pronunciados na ponta longa da curva a termo. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 tinha alta de 9,80% para 9,97%; e o do DI para janeiro de 2027 se elevava de 10,27% para 10,43%.

“O cenário para bolsa, com o juros abrindo do jeito que estão abrindo, acaba sendo muito ruim e os setores ligados ao mercado interno são os que mais sofrem. Hoje vemos esse dia bastante negativo para bancos e varejo”, afirma Silva.

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