BC defende mudanças em norma contábil dentro da reforma tributária, diz Campos

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

04/10/2021

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira (04) que a autoridade monetária vem defendendo mudanças em uma norma contábil específica (IRFS 9) no âmbito da reforma tributária.

“Temos defendido muito inserir o projeto IRFS 9 para eliminar essa distorção de ficar gerando crédito tributário para sempre”, disse em palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Segundo ele, da maneira como o sistema funciona atualmente, “quando cai o imposto, os bancos têm um prejuízo danado, porque têm que reprecificar o crédito tributário para baixo”.

Campos disse que o BC não participa de reforma tributária, mas monitora, por exemplo, como isso impacta o pagamento de dividendos e os efeitos no fluxo cambial.

Em sua fala, Campos disse que o Brasil tem um prêmio de risco na curva de juros “muito alto”, em parte ligado ao quadro fiscal. Ele relatou que a taxa longa “no Brasil subiu muito e é uma fonte de preocupação”.

Atividade econômica

Sobre a atividade econômica, afirmou que ela está em um nível pré-pandemia de atividade, com “índices de alta frequência mostrando todos estabilidade ou crescimento na ponta”. Já os “índices de confiança estão caindo”.

O presidente afirmou que os números da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua e do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) “estão convergindo lentamente”, mas o BC considera que os dados do Caged são “os mais corretos”.

A respeito da inflação, disse que o indicador acumulado em 12 meses deve atingir seu pico em setembro e que os “núcleos estão subindo acima do desejado.

“Tem um elemento de persistência, por isso temos sido mais incisivos nos juros”, afirmou.

No caso da inflação de serviços, Campos disse que esse reajuste “é um pouco represado” e “começou a acontecer” recentemente.

Sobre a performance da moeda em 2021, “o Brasil está na média, talvez um pouco melhor”, segundo ele. O país também tem “uma das inadimplências mais comportadas”. Além disso, neste ano, “já normalizou o nível de emissões de renda fixa”.

Superendividamento

Campos afirmou que a autoridade monetária debate usar um fundo garantidor para diminuir a parcela dos superendividados na população.

“Estamos discutindo se podemos usar algum fundo para diminuir esse superendividamento”, afirmou.

Ele também relatou que está “para sair” mais um mutirão de renegociação de dívidas entre as instituições financeiras e seus clientes, que em troca precisarão realizar um pequeno curso de educação financeira.

Campos também disse que espera que a autonomia do BC “seja um ganho que a gente consiga colher frutos ao longo do tempo”. Segundo ele, a autoridade vem alterando algumas normas para se adequar internamente. Campos classificou a aprovação da autonomia “um grande ganho institucional para o país”.

Petrobras

O presidente do BC afirmou que o comentário que fez sobre a Petrobras em meados de setembro foi “totalmente mal interpretado”. Na ocasião, em evento promovido pelo BTG Pactual, Campos disse que a autoridade monetária vinha olhando o repasse “muito mais rápido” de preços feito pela Petrobras do que é feito em outros países.

“A parte de passar preço de commodities para o preço interno, no Brasil, o mecanismo é um pouco mais rápido. Lembrando que a Petrobras, por exemplo, passa preço muito mais rápido do que em grande parte dos outros países. A gente tem olhado isso também”, disse na ocasião.

Campos afirmou que a declaração tinha um tom positivo. “Eu disse que o repasse do preço de combustíveis dele era mais lento [em outros países] do que o nosso”, afirmou. “Isso (declaração) era em um sentido positivo.”

Mundo

O presidente do BC disse que “deixamos de ter surpresas positivas no mundo em termos de crescimento”. “Passamos a ter surpresas neutras e negativas em alguns casos na Ásia”, disse Campos.

Segundo ele, a China “hoje enfrenta algumas batalhas particulares”, ligadas a construção civil e crédito, disputa entre governo e setor de tecnologia, emissões de carbono e comércio. “E o governo chinês sempre tentando minimizar a queda [da economia]”, afirmou.

Ele também voltou a afirmar que a inflação atual é um fenômeno global e que a alta dos preços tem dado “um susto bastante relevante” no mundo. “Ouvimos muito de inflação no Brasil, mas falamos pouco lá de fora”, disse.

De acordo com Campos, “alguns países estão com repasse bastante elevado” entre a inflação do produtor e do consumido.

“O mercado está começando a entender que o mundo vive um processo inflacionário” de maneira mais generalizada, segundo ele. Campos também voltou a citar que diversos países vêm apresentando gargalos de energia e demanda maior por energia limpa.

Sobre a economia brasileira, o presidente disse que o índice gerente de compras (PMI, na sigla em inglês) dos serviços tem apresentado “uma queda na ponta nos últimos dois, três meses”. Também disse que o país tem um nível de endividamento público “alto”.

Além disso, firmou que “não há uma ruptura de oferta, há uma mudança estrutural da demanda” no mundo. Lembrou que “estamos no recorde de produção de contêineres” no mundo, o que ajudaria a enfraquecer a tese de que há ruptura de oferta.

Campos disse que “componentes que fazem parte da gasolina subiram aqui [no Brasil] mesmo com o preço lá fora estabilizado”. Agora, os preços de commodities tradicionais no exterior “começam a ter comportamento diferente” entre eles.

No Brasil, o índice de preços ao consumidor “é um dos mais altos”, enquanto a inflação de serviços “está na média para baixo” e “relativamente comportada”, embora venha “subindo”. “É um número que olhamos muito de perto”, disse.

Nesse contexto, o “Brasil saiu na frente e subiu mais os juros”. “Entendíamos que era importante fazer esse movimento e ancorar as expectativas o mais rapidamente possível”, disse.

De acordo com o presidente do BC “há mais países subindo do que cortando” os juros. “Parece haver um ciclo com alguma tendência”, disse.

Ele ainda afirmou que há uma “inflação de energia em outros países que é muito diferente do que estamos vendo no Brasil”.

Pix

Campos afirmou que o “Pix no início gerou queda expressiva de receita dos bancos”, o que foi discutido com as instituições financeiras.

“Bancos foram engajados, eles não foram contrários [ao Pix]”, disse. “Eles entenderam que era um modelo de negócio que ia crescer.”

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