O projeto da chamada “super cana”, variedade que promete revolucionar a produção de etanol e biomassa, ainda precisa superar desafios operacionais para se tornar economicamente viável. A avaliação é do ex-CEO da Raízen (RAIZ4), Ricardo Mussa, que liderou a maior produtora global de etanol de cana-de-açúcar entre 2020 e o final de 2024.
Em entrevista ao Money Times, Mussa revelou que a Raízen já estudou a possibilidade de trabalhar com essa variedade, mas a iniciativa não avançou devido a dificuldades na colheita e processamento. "A ‘super cana’ tinha uma densidade enorme, o que tornava a colheita e o esmagamento mais difíceis. O sistema não estava preparado para isso", explicou.
O empresário Eike Batista, um dos grandes entusiastas da “super cana”, recebeu um aporte de US$ 500 milhões do grupo de investimentos Brasilinvest, de Mário Garneiro, para viabilizar o projeto. Segundo os idealizadores, a variedade poderia produzir de duas a três vezes mais etanol por hectare e até 12 vezes mais biomassa.
Mesmo assim, Mussa alerta que, para que essa promessa se concretize, é preciso garantir viabilidade operacional. "A taxa de conversão em biomassa é muito alta, o conceito é bacana, mas sem viabilidade operacional, não há viabilidade econômica", enfatizou.
Ele comparou o projeto com o etanol de segunda geração (E2G), que utiliza o bagaço da cana já disponível na usina. "No caso da super cana, seria necessário desenvolver um novo equipamento, uma nova forma de colheita e um novo método de processamento", detalhou.
Além da Raízen, outras grandes empresas do setor sucroenergético avaliaram e desistiram do projeto da super cana. Durante o CEO Conference do BTG Pactual, o CEO da Cosan (CSAN3), Rubens Ometto, também afirmou que sua companhia testou a variedade, mas decidiu abortar os planos.
"O etanol de segunda geração, sim, é uma inovação real. Ele permite aumentar em até 40% a produção sem expandir o plantio. E se eletrificarmos as usinas, podemos dobrar a produtividade sem nenhum investimento adicional em novas lavouras", afirmou Ometto.
Apesar das dificuldades, o projeto da "super cana" continua avançando. Segundo Luis Rubio, CEO da BRXd e sócio de Eike Batista, a expectativa é que a iniciativa comece a gerar caixa em 2028.
Enquanto o futuro da super cana ainda depende de soluções técnicas, o setor de biocombustíveis segue investindo no E2G e na expansão do etanol como alternativa sustentável na matriz energética global.