Entre recordes e incertezas: o Brasil diante de um mundo que se fragmenta

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Entre recordes e incertezas: o Brasil diante de um mundo que se fragmenta
Foto: reprodução

O Brasil passa por um momento de contraste difícil de imaginar. Se por um lado a bolsa bate recorde histórico, de outro o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) está acudindo um grande número de investidores que foram prejudicados com o fim dos bancos Master e Will Bank. Um cenário tão contraditório que desperta certa desconfiança. Não apenas porque a liquidação de um banco sempre tensiona o mercado financeiro, mas pela situação em que esse processo está ocorrendo e pelo envolvimento de nomes poderosos nas altas esferas de poder.
 

Até o dólar colaborou em um momento que deveria ser de tensão: baixou da casa dos R$ 5,30. Entramos em ano eleitoral com diversos analistas apontando a “fadiga fiscal”. Há o questionamento sobre o arcabouço fiscal, vendido como a salvação da lavoura, mas que, na prática, foi ineficaz. Sem uma âncora fiscal sólida, o Banco Central sofre ao abusar do único instrumento que lhe resta para combater a inflação. Dá-lhe juros e pé no freio de investimentos vitais.
 

As instituições seguem questionadas. Quem pode garantir a estabilidade onde regras podem ser modificadas sem maiores explicações? Regras são revistas, entendimentos revertidos, políticas fiscais desfeitas. Os fatos se sucedem, e o governo apaga uma série interminável de incêndios — menos o gasto, sempre crescente. É preciso muito boa vontade para descobrir qual é o objetivo e o plano econômico do governo.
 

Ao observar esses pontos, um receio naturalmente se instala. Porém, o Brasil segue como um porto seguro na produção de alimentos e commodities. É um hub energético com um grande potencial a ser explorado, em um planeta ávido por energia. São oportunidades reais, e isso torna a análise mais complexa e profunda. Para investidores de curto prazo, os problemas podem ser um convite à fuga. Para investidores de longo prazo — como os chineses —, o Brasil oferece vantagens estratégicas inigualáveis.
 

O cenário global desfavorece a previsibilidade e deixa os investidores perdidos em meio às mudanças. Existe uma fragmentação geoeconômica. Ao menos dois blocos estão se formando: um bloco liderado por EUA e União Europeia, outro por Rússia e China por meio dos BRICS. No entanto, a postura de Trump de confrontar seus aliados de longa data na OTAN, ao exigir a Groenlândia, gerou um imenso desconforto, mostrando que a fragmentação pode ser muito maior do que se pensava. Uma fratura tão grande que pode realinhar expectativas sobre os Estados Unidos.
 

No âmbito interno norte-americano, a expectativa de afrouxamento monetário nos EUA, somada à elevada Selic brasileira, ampliou o diferencial de juros e favoreceu fluxos para mercados emergentes como o Brasil. Soma-se a isso o custo de usar tarifas de importação como arma geopolítica, o que se mostra arriscado. Ao menos no curto prazo, essa sinalização errática gera insegurança. O efeito prático dessas pressões políticas na economia está sendo noticiado como “efeito fuga” nos Estados Unidos. Investidores que antes procuravam os EUA como porto seguro, agora têm de lidar com um governo que faz do embate sua estratégia de negociação — uma técnica conhecida no mundo dos negócios: primeiro faz-se uma exigência absurda para depois negociar aquilo que realmente é o objetivo. No mundo dos negócios ela é conhecida, mas na geopolítica gera instabilidade.
 

A União Europeia sofre há décadas com suas divisões internas e não entra em acordo sobre uma política unificada que realmente consiga proporcionar ao bloco um crescimento consistente. A prova é o comparativo do crescimento nos últimos 20 anos entre União Europeia e Estados Unidos. No início dos anos 2000, o PIB era semelhante; hoje, a União Europeia está bastante distante dos EUA. Os investidores entendem que a Europa se tornou um problema complexo e de difícil solução. Atolada em discussões e benefícios, não consegue priorizar seu setor produtivo. A prova disso é que já se judicializou o recém-assinado acordo UE – Mercosul.

O despertar do urso russo, no leste, acionou na economia o alarme de que as pretensões geopolíticas estão em rota de colisão. Revoluções no Irã, a queda de Maduro na Venezuela, e a mudança na gestão do petróleo venezuelano são pontos importantes a serem observados, todos eles repletos de incertezas.

 

São tantos eventos acontecendo em um espaço de tempo tão curto, e com consequências tão imprevisíveis, que os analistas estão tateando no escuro em relação ao futuro. As possibilidades são muitas e cada vez mais extremas.
 

A maior evidência dessa imprevisibilidade está na volatilidade das criptomoedas e na disparada do ouro e da prata como reserva de valor. Em um mundo onde tudo está imprevisível, os fundamentos clássicos se destacam, e sinais ambíguos passam a ser ignorados diante do mal maior. Em um país que possui riscos internos relevantes, mas nenhuma ameaça geopolítica direta, e localizado em uma área distante de todos os possíveis conflitos, o Brasil, de repente, passou a ficar mais interessante do que costumava ser — com vantagens aparentemente maiores do que os riscos.


Falta ter um plano que saiba mitigar os riscos internos e aproveitar os ventos externos favoráveis.


 


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