Em minhas colunas gosto de explorar correlações incomuns, particularmente destacando o papel da cultura como vetor de força social acima daquilo que estamos acostumados imaginar. Movido pelo espírito de Copa do Mundo e usando um pouco de minhas parcas habilidades analíticas como torcedor, ousarei fazer aqui o levantamento de uma hipótese que ainda não vi paralelo entre os comentaristas esportivos ou culturais mas creio que acerta em cheio no atual problema de nossa Seleção Brasileira: O declínio da identidade nacional com a Seleção e o espírito irreverente e driblador que garantiram ao país 5 Copas do Mundo.
A hipótese nasce de um cruzamento pouco evidente – a burocratização do futebol a partir dos anos 2000. Ao analisar o que aconteceu economicamente no Brasil no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, encontram-se 2 fenômenos: o crescimento da formalização econômica e o aumento do poder econômico dos clubes – assim como o provento dos jogadores. Os 2 títulos mundiais do São Paulo (1992/93) e o tetracampeonato da seleção em 94 colocaram o futebol nacional em destaque na vitrine mundial. O futebol europeu, um ávido comprador de craques brasileiros, aumentou seu apetite e a partir dos anos 1990 passamos a ter jogadores ídolos na Europa que sequer tiveram passagem relevante por clubes nacionais – como o caso de Sonny Anderson ou Giovanni Élber. Os clubes entenderam os ganhos de profissionalizar sua gestão e gradualmente tomaram esse caminho perseguindo os feitos do SPFC.
Soma-se a esse cenário as mudanças provocadas pela Lei Pelé de 1998, que deixa claro que revelar atletas havia se tornado um bom investimento, já que agora o clube que revela o atleta passa a ter direito percentual em transações futuras. Com isso os clubes passaram a direcionar uma fatia significativamente maior à base, e jogadores cada vez mais jovens acesso a treinamento individual, esquema tático e treino físico.
Mas esse não era o único lugar onde essa mudança aconteceu. A boa e velha várzea começou a perder espaço para as “escolinhas de futebol” ligadas a algum atleta aposentado que desejava auxiliar comunidades carentes ou aos grandes clubes espalhados pelo Brasil.
O sonho de ser jogador de futebol agora não passava mais por um período na infância vivido em campinhos improvisados, sem técnico, sem tática, sem instruções – puro improviso, magia e adversidade. Não havia divisão por idade, não havia regras claras em um ambiente altamente competitivo. Existia a vontade de vencer, o apelo a habilidade e o desenvolvimento do improviso. Os craques brasileiros nasciam nos campeonatos de bairro e campos de terra.
Os jogadores brasileiros eram como o empreendedor – que aprende a arte da sobrevivência, o ‘se vira nos 30’, a grande identidade nacional. Soluções tiradas do improviso diante do improvável, fazendo o impossível. O empreendedor brasileiro aprendeu a driblar adversidades, e o nosso atleta sabia – imerso na cultura do jeitinho brasileiro – driblar a mais terrível marcação, iniciar o caos na burocrática defesa europeia.
Hoje, as multinacionais deixam o país diante das dificuldades nacionais. Nossos empreendedores não têm opção. Precisam enfrentar as dificuldades por piores que sejam. O paralelo com os jovens que queriam jogar na várzea contra jogadores mais velhos é evidente. Tem que aguentar a pressão, ter habilidade, saber incendiar o jogo usando do improviso contra jogadores que possuem maior tamanho e certa maldade contra os pequenos que chegam no certame.
Esses jovens dos campos de periferia foram gradualmente substituídos por atletas em formação por escolinhas. Os jogos sem regras deram espaço aos treinos em escolinhas de formação que instruem crianças desde os 4, 5 anos. Os campos nos terrenos baldios foram sumindo. O que era diversão depois da escola se tornou uma aula a mais, como judô, karatê ou natação. A burocracia tática tomou lugar do improviso, asfixiado nos esquemas táticos. As desigualdades que forjavam os jovens e aprimoravam suas habilidades ao limite foram desestimuladas por um processo controlado e previsível. Enquanto nosso empreendedor precisa continuar mestre na arte de se virar em um ecossistema hostil, nosso futebol se engessa na burocracia tática dos treinadores importados da Europa – a nova onda do futebol nacional, e se afasta do DNA brasileiro, perdendo a identidade nacional.
A velha liberdade dos garotos forjados sob pressão na hostilidade da rua dava a eles a capacidade de improvisação e irreverência que destruía defesas e humilhava zagueiros. Em contrapartida, nossos jogadores eram ‘indisciplinados’, reconhecidos pela dificuldade de se adequar ao esquema tático. Podíamos ver isso no nosso sistema defensivo, tradicionalmente mais fraco – mas a força do ataque, compensava. E nunca houve ataque como o nosso: Pelé e Garrincha, Bebeto e Romário, Rivaldo e Ronaldo. Disciplina questionável – mas com gols e irreverência.
Hoje temos uma seleção de jogadores capazes de jogar dentro de um esquema tático complexo, simpáticos acatar ordens. Indisciplina e posicionamento não são mais um problema crônico. A defesa é confiável – mas no ataque, quanta diferença! Não temos mais a irreverência artilheira de um Romário, a explosão precisa de um Ronaldo, a alegria mágica de passes desconcertantes de um Ronaldinho Gaúcho, genialidade de um Zico, Sócrates. Jogadores forjados na alegria do improviso. Histórias de quem não apenas queria ser jogador de futebol, mas se divertia com ele.
Burocratizamos a arte, fizemos da alegria do jogo uma obrigação, ‘europeizamos’ a seleção e agora sofremos com a falta de jogadores capazes de fazer o diferente. Existem bons jogadores, mas a arte se perdeu em algum lugar nas escolinhas, ficou na rua. Não há mais o jogador que olhe para a empáfia do estádio ‘padrão FIFA’ e se veja como em uma grande várzea, onde apenas a alegria de jogar importa.