A ciência econômica estuda a organização, a ordem e os incentivos que direcionam a ação humana no âmbito produtivo e distributivo. A definição clássica de livro-texto diz: a economia estuda a alocação de recursos escassos e os processos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. É uma área de investigação lógica e contínua do processo de produção e manutenção da vida humana, tanto quantitativa quanto qualitativa.
Por essa definição, o direcionamento lógico do sistema aparece como principal ordenador. É um elemento poderoso para alinhar a produção e capaz de dar coesão ao sistema. Por isso, o sistema de recompensas tem ganhado protagonismo nos estudos econômicos. Se antes a economia destacava a questão da produção e distribuição de bens e serviços, agora se entende que existe um passo anterior que leva os agentes a produzir. Entender essa dinâmica mostra a motivação que estrutura a lógica interna de um sistema, ausente quando a análise foca apenas no processo produtivo.
Desde os economistas clássicos, o lucro como incentivo é entendido como a força motriz de todo o esforço subsequente para a melhoria de sua própria condição — a "mão invisível". Atualmente, isso foi refinado após as uniões interdisciplinares. Para se obter o lucro, são necessárias condições onde ele possa acontecer. Caso o sistema não as forneça, outras formas de buscar melhores condições de vida aparecerão fora do sistema formal.
A obtenção de lucro exige previsibilidade e regras claras: estabilidade institucional, segurança jurídica e uma estrutura tributária racional. Quando esses pilares se somam à disponibilidade de insumos — terra, capital, trabalho e tecnologia —, cria-se o ambiente necessário para a produção. Contudo, se essas bases se fragilizam, o estímulo ao investimento desaparece e o potencial de fomento do sistema se esvai.
É a partir dessa análise de estrutura econômica que o agente investidor decide aplicar recursos na economia real ou em um investimento especulativo. O rentista enxerga os juros, o risco e a remuneração do capital, obtendo o incentivo necessário para que os recursos permaneçam afastados do risco imediato da economia real. Essa realidade apenas aumenta a desigualdade daqueles que têm recursos dos que não têm.
As dificuldades de aderir ao sistema formal também geram incentivos para os que estão em sua base buscar melhores condições de vida à sua margem. A informalidade cresce, mercados paralelos surgem e a improvisação se torna a marca da ação econômica. Caso essas barreiras persistam, a criminalidade cresce; e, se o crime for percebido como compensatório, um estímulo pernicioso surge, invertendo os valores sociais.
No Brasil, é impressionante o paralelo. O país não apresenta uma estrutura lógica de recompensa positiva aos agentes econômicos. Resultado: sofre com informalidade, subemprego e com uma desigualdade potencializada por uma classe rentista consolidada. A explosão da criminalidade e sua consequente profissionalização apenas confirmam a inversão do sistema de incentivos. A percepção cultural de que o enriquecimento está correlacionado a ilícitos, e não ao trabalho ou empreendedorismo, é uma chave de leitura social. Essa cultura esvazia o incentivo que o trabalho deveria trazer em uma economia de mercado. Aqui, o empreendedor enfrenta uma maratona exaustiva e, caso seja bem-sucedido, é colocado em xeque sua honestidade.
O empreendedor é percebido como inimigo do povo e do trabalhador, porque remunera mal e explora a mão de obra. É o vilão da sociedade porque abusa dos consumidores e cobra o maior preço possível. E é encarado pelo governo como culpado de antemão, obrigado a passar pelos mais rigorosos processos burocráticos e cobrado em um nível de tributos que anula o incentivo mais básico para quem empreende: o lucro.
Esse tratamento é parte da engrenagem de motivação que esvazia o ímpeto empreendedor, fazendo com que muitos só empreendam porque estão em necessidade. O sucesso vira mero acaso. O jovem, ao procurar alternativas, vê-se restrito a enfrentar a dura realidade de empreender, virar CLT com baixo salário ou a se proteger na máquina pública. Quando o grande sonho do jovem é passar em um concurso público, fica evidente qual lado da estrutura está privilegiada, esvaziando o setor produtivo dos melhores e mais criativos indivíduos.
A consequência é que a estrutura produtiva nacional carece de impulso. Os recursos estão presos no rentismo e os melhores cérebros migram para a segurança do cargo público. A lógica do sistema não prioriza o crescimento, mas a estabilidade. O governo, principal agente econômico pela sua influência econômica e normativa, não trabalha com planejamento de longo prazo. Os sinais emitidos são quase sempre inversos ao que se precisa: mais burocracia e impostos. E isso empurra cada vez mais pessoas para fora do sistema formal. Agora, o problema é também sociológico: a violência dos grandes centros escapou ao controle e a massa de "trabalhadores do crime" cresce incontrolavelmente.
A economia incorporou variáveis, entendeu a complexidade da escolha sob risco e incerteza, e enfatizou o poder dos incentivos até o impacto final na cultura, afetando os sistemas econômicos. Mas, por aqui, o fomento é usado de forma desordenada e ideológica, alheia ao resultado real obtido, por vezes até o negando. Essa negação aprofunda o problema, que, nesse caso, extrapolou a economia e passou a ser moral e, agora, criminal.