O Veto e o Voto: a economia internacional abandona a neutralidade

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O Veto e o Voto: a economia internacional abandona a neutralidade
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Com a consolidação do segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca, uma fratura tectônica que já se desenhava na economia internacional virou o novo normal: as relações comerciais entre nações migraram definitivamente para o tabuleiro da geopolítica. Esqueça a tese de que o fluxo mundial de capitais e mercadorias obedece estritamente à lei da oferta, da demanda e do menor custo. No cenário contemporâneo, antes que um navio zarpe ou uma fábrica seja projetada, a decisão passa por um filtro político nos gabinetes governamentais que pondera o alinhamento estratégico e a segurança nacional. O comércio internacional deixou de ser apenas uma busca por eficiência para se transformar em uma ferramenta de pressão de primeira linha.

Essa guinada profunda marca o enfraquecimento da globalização tradicional. O mundo operava sob uma premissa liberal clássica, baseada nas vantagens comparativas, segundo a qual o livre comércio e a mobilidade da produção — com o mínimo de interferência estatal — promoveriam ganhos mútuos e crescimento econômico. Esse arcabouço garantia tarifas reduzidas para que transnacionais realizassem investimentos estratégicos onde a produção fosse mais barata e eficiente. Hoje, essa lógica perdeu força. Entramos na era do friendshoring (comerciar preferencialmente com aliados) e do de-risking (redução de dependências estratégicas), na qual fronteiras políticas e preocupações de segurança nacional erguem novas barreiras sobre os fluxos globais de mercado.

Dentro dessa nova mentalidade, o espaço para as corporações agirem como atores livres encolheu. O entendimento que ganhou força em Washington — impulsionado pelo movimento Make America Great Again (MAGA), mas que ultrapassa divisões partidárias, é o de que as empresas domésticas devem estar mais alinhadas aos interesses estratégicos do país. Sob a ótica americana, a busca irrestrita pelo lucro de curto prazo levou o empresariado a transferir fábricas para o Oriente, explorando mão de obra mais barata e custos menores de produção. O resultado microeconômico gerou lucros imediatos; o macroeconômico trouxe desindustrialização, desemprego estrutural e transferência de capacidade produtiva para rivais estratégicos. Para reverter esse processo, os Estados Unidos passaram a utilizar tarifas, cotas, subsídios e incentivos fiscais para estimular o retorno de investimentos considerados essenciais.

Seria uma ingenuidade, contudo, atribuir essa mudança apenas aos americanos. A postura de Washington é, em grande medida, uma reação ao modelo que a China desenvolveu com extraordinária eficiência ao longo das últimas décadas. Pequim jamais separou economia e geopolítica. Por meio de seu capitalismo de Estado, o governo chinês utiliza empresas, bancos e políticas industriais como instrumentos de projeção de poder e influência internacional. A legislação chinesa é clara ao estabelecer a primazia dos interesses do Estado e do Partido Comunista sobre qualquer interesse privado. No Ocidente, demorou-se a compreender que, na China, a propriedade privada permanece subordinada aos interesses estratégicos do Estado e do Partido Comunista.

Os Estados Unidos se viram diante de um rival capaz de mobilizar instrumentos econômicos em uma escala raramente vista nas democracias ocidentais: planejamento estratégico de longo prazo, rapidez de execução sem os freios característicos dos sistemas pluripartidários e subsídios massivos que alteram profundamente as condições da concorrência global. Independentemente do julgamento moral que se faça sobre o regime chinês, trata-se de uma vantagem operacional que influencia diretamente a disputa econômica internacional.

Enquanto as duas maiores potências do mundo duelam de forma aberta, a União Europeia joga o mesmo jogo por meios mais discretos e burocráticos. Historicamente protecionista em áreas sensíveis como a agricultura, o bloco aperfeiçoou o uso das chamadas barreiras não tarifárias — exigências técnicas, ambientais e sanitárias — como instrumento de proteção de seus produtores locais.

Um exemplo concreto dessa dinâmica ocorreu na última sexta-feira, 5 de junho de 2026, quando a Comissão Europeia publicou o Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, oficializando a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne bovina, carne de frango, mel e tripas para o bloco. O veto, com início previsto para 3 de setembro de 2026, foi formalmente justificado pela ausência de informações consideradas suficientes para comprovar o cumprimento das exigências europeias relativas ao controle do uso de antimicrobianos na pecuária.

A dimensão política da decisão torna-se difícil de ignorar quando observamos que outros países do Mercosul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, permaneceram habilitados a exportar normalmente para o mercado europeu. Além disso, a medida surge em um contexto de forte resistência de agricultores europeus ao acordo entre Mercosul e União Europeia. Ainda que a justificativa sanitária apresentada pelo bloco possa possuir fundamento técnico, o momento da decisão e seus efeitos econômicos sugerem que pressões políticas internas também desempenharam papel relevante, impondo um duro golpe ao agronegócio brasileiro. A norma técnica transformou-se, na prática, em instrumento de disputa comercial.

Diante desse mundo fragmentado em blocos econômicos cada vez mais competitivos, o Brasil enfrenta um desafio estratégico. Para um país que há décadas adia reformas estruturais, convive com baixa produtividade e mantém um ambiente de negócios excessivamente complexo, a única saída racional é uma diplomacia pragmática orientada por resultados concretos.

Não temos o luxo de escolher lados por afinidade ideológica. Nossa prioridade deveria ser utilizar a relevância do Brasil como potência agroalimentar, energética e mineral para ampliar mercados, atrair investimentos e fortalecer nossa posição negociadora. Isso exige maturidade diplomática e uma política externa guiada por interesses nacionais permanentes, e não por alinhamentos automáticos de ocasião.

Em uma economia internacional que abandonou a ingenuidade e transformou o comércio em instrumento de disputa estratégica, guiar-se por alinhamentos ideológicos em vez de interesses nacionais concretos é o caminho mais rápido para ser devorado pelos gigantes e acabar pagando a conta do jantar alheio.


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