A COP30, realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro de 2025, ocorreu no marco simbólico dos dez anos do Acordo de Paris e reuniu cerca de 55 mil participantes de quase 200 países. A expectativa era de avanços mais fortes na agenda climática global, mas o resultado final acabou misturando conquistas pontuais com decepções importantes.
Um dos pontos positivos foi a manutenção do compromisso com o multilateralismo. Mesmo em meio a tensões geopolíticas, os países reafirmaram a necessidade de manter o processo de negociação dentro da Convenção do Clima. Também houve um acordo para triplicar os recursos destinados à adaptação de países vulneráveis até 2035, reconhecido como um passo relevante diante do aumento de eventos climáticos extremos. A conferência também aprovou 59 indicadores para acompanhar a Meta Global de Adaptação, embora o uso prático desses indicadores ainda dependa de metodologias e financiamento.
Outro destaque foi a criação do Mecanismo de Transição Justa, que busca garantir que a mudança para uma economia de baixo carbono leve em conta trabalhadores, povos indígenas e comunidades vulneráveis. A Amazônia e outros biomas tropicais também ganharam visibilidade, especialmente após o anúncio do fundo brasileiro “Tropical Forest Forever Facility”, de 125 bilhões de dólares, voltado à conservação florestal.
Por outro lado, a falta de consenso sobre os combustíveis fósseis foi vista como a maior falha da conferência. O texto final não mencionou uma saída programada para petróleo, gás e carvão, apesar da pressão de diversos países e organizações. Também houve críticas à fragilidade das propostas de financiamento. Embora o aumento dos recursos para adaptação tenha sido celebrado, ainda não está claro quem vai pagar, como os valores serão distribuídos e de que forma será possível atrair capital privado. A previsão de 1,3 trilhão de dólares por ano até 2035 permaneceu apenas como indicação, sem plano concreto.
As metas de redução de emissões também ficaram abaixo do necessário para manter o aquecimento em torno de 1,5 °C. As Contribuições Nacionalmente Determinadas continuam insuficientes e dependem de cortes de emissões mais rápidos e ambiciosos. Críticos apontaram ainda que as negociações seguem lentas, burocráticas e pouco acessíveis aos países menores, o que reforça a sensação de que a diplomacia avança mais do que as ações práticas.
Alguns mecanismos aprovados ainda dependem de detalhamento e implementação. O conjunto de indicadores de adaptação necessita de definições técnicas e fontes de recursos. A transição justa exige planos nacionais específicos e financiamento próprio. O fundo brasileiro para conservação florestal precisa consolidar suas regras, e a discussão sobre combustíveis fósseis tende a continuar fora do texto oficial, em coalizões paralelas sem força legal.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o papel do Brasil na condução das negociações, mas alertou que o tempo para agir é menor do que o tempo gasto em debates. Organizações da sociedade civil classificaram o resultado como fraco, enquanto negociadores de alguns países disseram que, apesar das limitações, o texto garante a continuidade das discussões. Delegados mais críticos afirmaram que a conferência careceu de maior ambição.
Especialistas avaliam que a COP30 avançou ao fortalecer diagnósticos e criar ferramentas importantes, mas não conseguiu enfrentar os impasses centrais da agenda climática, especialmente a redução de combustíveis fósseis e o financiamento robusto para adaptação e mitigação. O encontro acabou sendo mais um movimento administrativo do que uma resposta concreta à urgência climática.
A conferência representou um passo relevante, mas modesto. Para que seja lembrada como ponto de virada, será necessário que os compromissos assumidos se transformem rapidamente em ações mensuráveis. Caso contrário, o encontro corre o risco de ser mais uma etapa protocolar em um momento que exige transformações profundas e imediatas.