A Mata Atlântica respira, mas ainda está longe de estar salva

Queda histórica no desmatamento mostra que fiscalização funciona, mas pressão econômica e mudanças nas leis ambientais mantêm o bioma sob ameaça

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A Mata Atlântica respira, mas ainda está longe de estar salva
Foto: Divulgação/Greenpeace

A redução de 28% no desmatamento da Mata Atlântica em 2025 representa uma das notícias ambientais mais importantes dos últimos anos no Brasil. Mais do que um dado técnico, o resultado mostra que políticas públicas, fiscalização e pressão da sociedade ainda conseguem frear a destruição ambiental quando são aplicadas com continuidade e rigor. O país passou de mais de 53 mil hectares desmatados para cerca de 38 mil hectares em apenas um ano. Nas florestas maduras, consideradas mais sensíveis e valiosas ambientalmente, a queda chegou a 40%.

O número ganha ainda mais relevância porque a Mata Atlântica é hoje o bioma mais devastado do Brasil. Restam fragmentos isolados do que já foi uma imensa cobertura florestal ao longo do litoral e do interior do país. Durante décadas, expansão urbana, agricultura, pecuária, mineração e crescimento populacional avançaram sobre áreas de vegetação nativa. Em muitas regiões, a floresta sobrevive espremida entre cidades, rodovias, loteamentos e propriedades rurais.

O dado positivo mostra algo importante: fiscalização ambiental funciona. Ações como embargo remoto, restrição de crédito para áreas desmatadas ilegalmente e operações de combate à derrubada ilegal produziram resultado concreto. Isso desmonta um discurso recorrente de que proteção ambiental seria necessariamente um obstáculo ao desenvolvimento econômico. 

Na prática, os números mostram que presença do Estado e cumprimento da lei reduzem ilegalidades sem impedir produção.

Mas é preciso compreender que reduzir o desmatamento não significa resolver o problema. A Mata Atlântica continua extremamente fragmentada. Cada pequeno trecho perdido provoca impactos ambientais relevantes. Esses fragmentos ajudam na preservação de nascentes, na regulação do clima, na proteção dos solos e na manutenção da biodiversidade. Em um país que enfrenta secas severas, enchentes e extremos climáticos cada vez mais frequentes, preservar vegetação nativa deixou de ser apenas uma pauta ambientalista e passou a ser uma questão econômica e estratégica.

O próprio agronegócio depende diretamente desse equilíbrio ambiental. Água, regime de chuvas, estabilidade térmica e fertilidade do solo possuem relação direta com conservação florestal. A destruição contínua da vegetação nativa pode trazer ganhos imediatos em expansão territorial, mas gera riscos futuros para a produtividade agrícola. O Brasil moderno não pode mais tratar produção e preservação como inimigas naturais. As duas atividades precisam coexistir.

Ao mesmo tempo, os números também revelam contradições importantes. Bahia, Minas Gerais, Piauí e Mato Grosso do Sul concentraram quase 90% de toda a área desmatada na Mata Atlântica em 2025. E segundo a SOS Mata Atlântica, cerca de 96% das áreas destruídas foram destinadas ao uso agropecuário, grande parte com indícios de ilegalidade. Isso mostra que ainda existe forte pressão econômica sobre os remanescentes florestais.

Outro ponto preocupante é o debate atual sobre flexibilização das leis ambientais. 

Entidades ambientais alertam que mudanças recentes aprovadas no Congresso, ligadas ao licenciamento ambiental, podem enfraquecer justamente os mecanismos que ajudaram a reduzir o desmatamento. 

Existe um risco claro de o país desmontar instrumentos de controle no momento em que eles começam a apresentar resultado efetivo.

A queda histórica do desmatamento na Mata Atlântica merece reconhecimento, mas não pode gerar acomodação. O bioma continua vulnerável, fragmentado e pressionado economicamente. Ainda assim, os dados deixam uma lição importante: quando existe fiscalização, monitoramento e aplicação da lei, o desmatamento cai. 

O desafio do Brasil agora é transformar essa redução em política permanente de Estado e não em um resultado passageiro sujeito às mudanças políticas e econômicas do momento.


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