A economia da preguiça: quando o mínimo custa o máximo

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A economia da preguiça: quando o mínimo custa o máximo
Foto divulgação

   A humanidade possui padrões. Alguns ousam até classificá-los como lei – como a Lei do Mínimo Esforço. Nela, assume-se o pressuposto de que o indivíduo sempre despenderá o menor esforço necessário, buscando o maior retorno possível. Embora psicólogos se oponham a aceitá-la como lei, a biologia celular endossa a premissa. O cérebro humano comprova: está sempre disposto a seguir o caminho mais simples e rápido para evitar gastar energia em pensamentos complexos. Surge aí a heurística, viés de pensamento que corrói a premissa da racionalidade.

   Buscando mitigar esse viés detectado pelos antigos, a cultura ocidental ordenou o processo de formação. Era necessário instruir a pessoa a domar os impulsos e aceitar o caminho árduo como formação do caráter. O abandono da visão de curto prazo, o entendimento do esforço continuado para as realizações, a postura paciente e resignada diante das dificuldades moldavam a postura frente às obrigações, o autodomínio e a capacidade de sacrifício.

   Adquirir conhecimento é igualmente penoso. Da alfabetização à faculdade são duas décadas de empenho. Isso faz da conquista do diploma superior um marco, culminando na licença para desempenhar a atividade profissional escolhida. Com o domínio do conhecimento, obtém-se a licença profissional. O estudo e a formatura abriam portas profissionais.

   Mas, com a inteligência artificial, algumas barreiras foram quebradas. A faculdade, cara e rígida, não reage na velocidade que o mercado demanda, apresentando resultados cada vez piores em termos de empregabilidade. A proficiência intermediária antes exclusiva de certas profissões está disponível para os usuários, salvo os casos de maior complexidade – que são minoria.

    Voltamos ao mínimo esforço: a I.A. promove a possibilidade de resultados excelentes com esforço quase nulo. Por que preciso estudar para analisar um caso se posso pedir para uma I.A. fazer isso, e com um resultado que está em pé de igualdade com a maioria dos profissionais da área? Quanto tempo até o atual sistema entrar em colapso? Indo mais além: por que alguém deveria começar a estudar agora?

  Não é apenas um problema econômico. Há evidências crescentes de “cognitive offloading” com I.A.; há redução de ativação neural (funcional) em tarefas feitas com I.A.; há quedas de desempenho quando o indivíduo precisa voltar a trabalhar sem I.A.; há preocupação real em centros de pesquisa sobre perda de pensamento crítico. É o que apontam estudos do MIT Media Lab e da Microsoft/CMU.

  De outro lado, empresas tiveram uma explosão de produtividade, fazendo mais com menos – inclusive menos funcionários. Pequenas empresas, sem orçamento para contratação de pessoal, aumentaram significativamente sua produção, produtividade e receita com o uso de I.A. A automação de processos com uma fração do custo é realidade. Muitos profetizam uma era de ouro na economia, com custos menores e produtividade crescente. Isso é visível no curto prazo.

  O otimismo gera efeitos e distorções. Analistas reconhecem uma bolha da I.A. que, segundo Torsten Slok, supera a bolha “pontocom”. A valorização de startups do setor revela a euforia. Mas algumas questões precisam ser respondidas, especialmente quando olhamos para o longo prazo.

  Como fazer para manter a sociedade ciente de buscar o melhor uso possível da ferramenta e não se deixar levar pelo mínimo esforço, provocando uma geração de acomodados? Como motivar um profissional a desempenhar seu melhor se a I.A. logo irá superá-lo?

   A I.A. possui curva de aprendizagem amplamente maior que a do ser humano. Quem pode afirmar que ainda será necessária a presença de pessoas em determinados processos daqui a alguns anos – ou até meses?

  Se hoje necessito contratar uma agência de publicidade para uma campanha on-line, por que uma I.A. não poderá fazer todo o processo no futuro? Por que isso não poderia ser replicado a dezenas de outros profissionais, empresas e modelos de negócios?

  Empresas donas das inteligências captam informações relevantes de milhões que usam suas ferramentas diariamente. Para onde vão, quem armazena e com quem se compartilham as informações captadas pela máquina? Qual é o seu uso?

   Não estariam as empresas donas de I.A. recebendo treinamento e expertise dos próprios usuários, de modo que acabarão se transformando no prestador de serviço que essas empresas-clientes estão ensinando e treinando os algoritmos a desenvolver — produzindo um serviço final melhor e mais refinado ao cruzar dados e absorver informação de todos os seus usuários?

   Nunca tantas profissões, empresas e modelos de negócio estiveram em xeque. Uma única I.A. poderá atuar como uma gama de profissionais, ofertando diversos tipos de serviços praticamente sem custo. É só questão de tempo. Como o mercado vai responder a isso? Quem se salvará?

  Ao buscar o mínimo esforço, estamos terceirizando tudo: empresas, empregos, processos, pensamento, raciocínio, etc. O custo da máquina é sempre menor. O custo humano é elevado, leva tempo e demanda esforço. Porém, a alma humana precisa do sacrifício para evoluir ao seu melhor. Estamos realmente dispostos a sacrificar a grandeza do espírito humano e a destreza intelectual por comodidade? Aqui, ecoa o motivo pelo qual alguns ousam chamar isso de Lei do Mínimo Esforço.

 


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