Alienação e caos: o jeitinho brasileiro de adiar responsabilidades

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Alienação e caos: o jeitinho brasileiro de adiar responsabilidades
Foto: reprodução

O Brasil é o país do jeitinho. Isso é evidente tanto no imaginário popular como na postura padrão do brasileiro. Este é o país onde a desorganização e a burocracia ineficiente vencem o mais metódico dos seres humanos. Estrangeiros, quando aqui chegam, se espantam com a confusão. É aí que o jeitinho reina: em vez de encararmos o problema e resolvermos a situação, jogamos tudo para debaixo do tapete. É a arte de deixar para depois tudo aquilo que deveríamos ter feito ontem.

Em uma cultura que abraça um misto de malandragem com procrastinação dissimulada como parte de seu ethos, sempre que um problema eclode reagimos com um misto de indignação – necessária para manter o autoengano – com surpresa encenada, porque sabemos que não há novidade nenhuma ali. Explodimos em falsa indignação, que dura uma semana. E coloco em xeque a capacidade do brasileiro de se indignar, pois a indignação leva à mudança e a busca de resolução do problema, coisa que não acontece. Fomos lentamente entorpecidos pelo aumento gradual da temperatura até a fervura e agora estamos insensíveis ao calor dos fatos.

É dessa forma que o problema da violência pública se encontra no país. Sabemos que o limite já foi ultrapassado, mas fingimos normalidade. O povo vive a desesperança, refém de políticos corruptos que nada fazem de um lado, e de criminosos que raramente são condenados de outro. O cidadão vive perdido em meio ao caos, enquanto, ironicamente, acredita que o Brasil é o “país do futuro”. Outro autoengano baseado em wishful thinking.

Ignorar problemas urgentes também é marca da nossa classe dirigente. A elite ignora, com tranquilidade, os problemas em rota de colisão. O problema com o crime organizado só escancara o nível da alienação e do descaso dos governantes com o povo. Comunidades, favelas, bairros inteiros foram tomados. São locais onde não existe liberdade, muito menos economia livre, com mercado e concorrência. Tudo é fornecido pelo monopólio do crime. Não há com quem reclamar, e não há justiça, apenas a lei da força. Por onde estivemos que nunca nos revoltamos contra isso?

Mas esse é apenas um dos problemas “pra ontem” que empurramos com a barriga. Na esfera econômica existem diversos outros que seguem a mesma linha: sabemos que vai explodir, mas nossa cultura do “deixa como está para ver como é que fica” adia as atitudes necessárias para evitar que o problema tome proporções tão grandes que acabe por detonar uma crise.

A Previdência é um desses casos. O problema é conhecido. Foi analisado, entendido e postergado. O presidente do TCU afirmou que a Previdência é “uma bomba que não vai parar de explodir”, em entrevista em fevereiro deste ano. A situação vem piorando; os números não nos deixam mentir – a bomba existe. No entanto, os políticos ignoraram o problema. Vida que segue.

As contas públicas estão na mesma situação. A dívida pública sofreu uma piora acentuada. Analistas, estudos e simulações apontam para o colapso já em 2027. Esse aviso veio também na LDO de 2026, divulgada em abril de 2025. Os políticos do atual governo não se importam e não adotam uma única ação no sentido de conter gastos e buscar o equilíbrio das contas. O contrato com o caos está assinado, mas todos fingem normalidade.

A reforma tributária segue a rota. Vai instituir o maior imposto IVA do mundo. É IVA de zona do Euro em país pobre. Essa conta vai para o setor de serviços, o que mais emprega e tem maior representação econômica, responsável por 57% dos empregos formais (CNS) e 59% do PIB, segundo o IBGE. Estamos preparados para encarecer brutalmente os serviços e causar impacto estrutural no setor? Conseguiremos remanejar os milhões de trabalhadores desempregados com a queda da demanda? Mais um problema solenemente ignorado.

E o governo segue trabalhando na criação e no aumento de tributos. São mais de 25 desde o início do mandato. Apesar dos brandos protestos, segue o arrocho. A curva de Laffer é um argumento simples e sólido que o governo ignora. O efeito rebote da queda de investimentos em uma economia hipertributada é ignorado. Até que venha uma crise semelhante à de 2015, seguiremos em negação, gastando, subsidiando e tributando até o último segundo. Ninguém age.

Por que tanta dificuldade em resolver problemas tão óbvios? Porque é preciso contemporizar com a elite e preservar sua galinha dos ovos de ouro — o status quo burocrático. O jeitinho é o instrumento dessa acomodação: a forma mais simples de evitar mudanças profundas, movendo-se o mínimo necessário para parecer ativo. Qualquer ação real soa intransigente, radical demais. E, no imaginário popular, a posição intermediária é sempre a mais confortável — o lugar do suposto equilíbrio. Mas entre o verdadeiro e o falso não há meio-termo elegante; há apenas o erro com ares de moderação — um fetiche nacional. Assim, o Brasil não afunda por falta de diagnósticos, mas por excesso de jeitinhos que produzem acomodações e mascaram o problema. Somos o país que confunde esperança com adiamento — e fé com inércia.


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