O avanço das temperaturas e a maior frequência de ondas de calor têm imposto novos desafios à pecuária de corte, especialmente em sistemas intensivos. O estresse térmico afeta diretamente o consumo de matéria seca, altera o metabolismo e compromete o desempenho animal. Em condições de calor extremo, bovinos podem reduzir o consumo em até 20%, impactando negativamente o ganho de peso diário. Nesse cenário, a nutrição deixa de ser apenas suporte produtivo e passa a ser ferramenta estratégica para mitigar perdas e manter a eficiência do sistema.
O principal efeito do calor sobre os animais está relacionado ao aumento da necessidade de dissipação de calor metabólico. Dietas com maior produção de calor durante a digestão, especialmente aquelas ricas em fibra de baixa qualidade, tendem a agravar o problema. Por isso, estratégias nutricionais voltadas à redução do incremento calórico tornam-se fundamentais. A inclusão de ingredientes mais energéticos e de alta digestibilidade, como coprodutos ricos em pectina e lipídios, permite aumentar a densidade energética da dieta sem elevar excessivamente a produção de calor no rúmen.
Nesse contexto, sistemas de alimentação mais adensados ganham destaque. Ao concentrar mais energia em menor volume de alimento, é possível compensar a queda no consumo e manter níveis adequados de ingestão energética. Dietas com maior teor de concentrado podem reduzir a produção de calor metabólico por unidade de energia consumida, favorecendo o desempenho em ambientes quentes. No entanto, esse ajuste exige cuidado para evitar distúrbios ruminais, sendo essencial o uso de fibra efetiva e aditivos que estabilizem o ambiente ruminal.
A escolha dos ingredientes também desempenha papel decisivo. Substituir parcialmente o milho por fontes como polpa cítrica ou casca de soja pode melhorar o padrão de fermentação ruminal, reduzindo riscos de acidose e contribuindo para maior conforto térmico. Além disso, a inclusão de gorduras protegidas ou lipídios pode aumentar a densidade energética sem elevar a produção de calor, sendo uma estratégia amplamente recomendada em condições de estresse térmico. Dietas com maior teor de energia líquida e menor incremento calórico são mais eficientes em climas quentes (Tabela 1).
Outro ponto importante está no manejo da alimentação. Ajustes no horário de fornecimento, priorizando períodos mais frescos do dia, como início da manhã e final da tarde, contribuem para maior consumo e melhor aproveitamento da dieta. A oferta de alimento em momentos de menor temperatura reduz o desconforto térmico e favorece a ingestão voluntária. Além disso, garantir acesso contínuo à água de qualidade e em quantidade suficiente é condição básica para manter o desempenho em períodos críticos.
Tabela 1 – Estratégias nutricionais para estresse térmico em bovinos.
Fonte: Adaptado de NRC (2016) e Embrapa Gado de Corte
Quando não manejado corretamente, o calor excessivo resulta em queda de desempenho, piora da conversão alimentar e aumento do tempo de terminação. Em casos mais severos, pode comprometer a saúde dos animais e elevar a mortalidade. Por outro lado, sistemas que adotam estratégias nutricionais ajustadas conseguem reduzir significativamente esses impactos, mantendo ganhos consistentes mesmo em condições adversas.
Vale destacar que a nutrição deve estar integrada a outras práticas de manejo, como oferta de sombra, ventilação e manejo de lotação, potencializando os resultados. A combinação de ambiente adequado e dieta ajustada é o que permite explorar ao máximo o potencial produtivo dos animais, mesmo em cenários de calor intenso.
Outro aspecto relevante é a adaptação progressiva dos animais às dietas mais concentradas durante períodos de calor. Mudanças bruscas na composição da dieta podem aumentar o risco de distúrbios metabólicos, justamente quando o animal já está sob estresse térmico. Protocolos de adaptação bem conduzidos permitem ajustar o rúmen gradualmente, garantindo maior estabilidade no consumo e melhor resposta produtiva. Esse cuidado é ainda mais importante em sistemas intensivos, onde pequenas falhas de manejo podem gerar perdas expressivas.
Além disso, a inclusão de aditivos específicos, como leveduras, ionóforos e moduladores de fermentação, tem mostrado resultados consistentes na melhoria da eficiência alimentar em ambientes quentes. Esses aditivos contribuem para maior estabilidade ruminal, melhor aproveitamento dos nutrientes e menor produção de calor associada à fermentação. Dessa forma, atuam como ferramentas complementares dentro de uma estratégia nutricional mais ampla, voltada à manutenção do desempenho mesmo sob condições climáticas desafiadoras.
No final das contas, enfrentar o verão não é apenas uma questão climática, mas de estratégia. Ajustar a dieta, escolher bem os ingredientes e entender o comportamento animal diante do calor são decisões que fazem diferença direta no bolso do produtor. Em um ambiente cada vez mais desafiador, quem antecipa o problema e se adapta, mantém o desempenho — e segue produzindo arrobas mesmo sob altas temperaturas.