A busca por maior produtividade na pecuária de corte tem levado técnicos e produtores a repensarem práticas tradicionais e adotarem abordagens mais integradas, nas quais o bem-estar animal e a nutrição caminham lado a lado. Essa mudança de paradigma não é apenas uma exigência ética ou de mercado, mas uma estratégia comprovada para aumentar a eficiência produtiva e a rentabilidade das propriedades.
O bem-estar animal está diretamente relacionado ao desempenho zootécnico. Animais submetidos a condições adequadas de conforto térmico, manejo alimentar regular e ambiente enriquecido apresentam melhores índices de ganho de peso, conversão alimentar e saúde geral (Figura 1). A criação em ambientes com sombra, por exemplo, reduz o estresse térmico, diminui o consumo de água e melhora a eficiência alimentar, além de contribuir para o sequestro de carbono e a sustentabilidade da propriedade.
Figura 1 - Os“5 domínios”, levantadas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), reconhecidas para diagnosticar o bem-estar animal
A nutrição, quando aplicada com foco no bem-estar, torna-se uma poderosa aliada na produção de mais carne. A nutrição de precisão, conceito amplamente difundido, permite ajustar a dieta dos animais conforme suas exigências fisiológicas e o estágio produtivo. Isso evita excessos de nutrientes como nitrogênio e fósforo, que além de onerar o custo da ração, podem causar impactos ambientais negativos. A adequação proteica na dieta reduz o excesso de nitrogênio no sistema produtivo, sem comprometer a produção.
No caso da pecuária de corte, práticas como o fornecimento de suplementos estratégicos em períodos críticos, como a seca, o uso de pastagens bem manejadas com rotação e adubação equilibrada, e a oferta de água limpa e em quantidade adequada são fundamentais para garantir o conforto e a saúde dos bovinos. A irregularidade no trato, por sua vez, é um dos principais fatores de estresse, afetando negativamente o consumo voluntário, a digestibilidade dos alimentos e, consequentemente, o desempenho animal.
Outro ponto crucial é o dimensionamento e a localização das estruturas de suporte, como cochos e bebedouros. A superlotação em áreas de alimentação, a falta de acesso à água ou a presença de lama e sujeira ao redor dos pontos de fornecimento são erros comuns que comprometem o bem-estar e a produtividade. A adoção de piquetes menores, com sombreamento natural ou artificial e acesso facilitado à água de boa qualidade, tem se mostrado eficaz na melhoria do conforto animal e no aumento da taxa de lotação.
Além dos ganhos zootécnicos, o bem-estar animal tem implicações diretas no consumo de carne bovina. O consumidor moderno está cada vez mais atento à origem dos alimentos e às condições de criação dos animais. Certificações de bem-estar e rastreabilidade agregam valor ao produto, abrindo mercados e possibilitando melhores preços. Nesse sentido, investir em nutrição alinhada ao bem-estar não é apenas uma questão de eficiência produtiva, mas também de posicionamento estratégico no mercado.
Os números falam por si: práticas que promovem o bem-estar animal, aliadas a uma nutrição adequada, resultam em maior produtividade, menor mortalidade e maior eficiência alimentar. O desafio está em transformar conhecimento técnico em ações práticas no campo, respeitando as particularidades de cada sistema produtivo. A boa notícia é que os resultados são tangíveis e sustentáveis, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental. O futuro da pecuária passa, inevitavelmente, por uma produção mais consciente, onde o bem-estar animal deixa de ser um diferencial e se torna parte essencial da estratégia produtiva.
Além disso, a integração de tecnologias digitais, como sensores de monitoramento e análise de dados em tempo real, tem potencial para revolucionar a gestão da nutrição e do bem-estar animal. Essas ferramentas permitem ajustes precisos e imediatos nas condições de manejo, antecipando problemas e otimizando recursos. A adoção dessas inovações representa um passo importante para a pecuária moderna, alinhando sustentabilidade, produtividade e qualidade de vida para os animais e produtores.