Mais Arrobas com suplementação proteica de liberação lenta

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Mais Arrobas com suplementação proteica de liberação lenta
Foto: Divulgação

Em meio aos desafios da pecuária brasileira, onde as estações secas impõem limitações severas na qualidade das pastagens, a busca por estratégias que maximizem o ganho de peso animal torna-se essencial para a rentabilidade das propriedades. Com forragens pobres em proteína durante os meses de estiagem, os bovinos frequentemente perdem arrobas valiosas, comprometendo o ciclo produtivo e elevando custos operacionais.

Nesse contexto, a suplementação proteica emerge como uma ferramenta poderosa, permitindo não apenas a manutenção, mas o incremento no desempenho zootécnico, com foco em fontes inovadoras que otimizam a nutrição ruminal e reduzem riscos associados.

A proteína desempenha um papel fundamental no metabolismo dos ruminantes, atuando diretamente no crescimento muscular, na reprodução e na imunidade dos animais. Deficiências proteicas em dietas baseadas em gramíneas tropicais podem reduzir o ganho diário de peso em até 30%, afetando a eficiência de conversão alimentar e prolongando o tempo até o abate. Para contornar isso, o nitrogênio não proteico surge como uma alternativa econômica e eficaz, servindo de substrato para os microrganismos ruminais sintetizarem proteína microbiana de alto valor biológico.

A ureia, como principal composto desse grupo, é hidrolisada no rúmen em amônia, que é incorporada às bactérias para formar aminoácidos essenciais, desde que haja energia disponível de carboidratos fermentáveis, como amido ou celulose. No entanto, o uso da ureia convencional exige cautela, pois sua liberação rápida de amônia pode levar a picos tóxicos no rúmen, elevando o pH e favorecendo a absorção excessiva para o sangue, com sobrecarga hepática e renal. Ingestões acima de 40-50g por 100kg de peso vivo podem causar intoxicação, manifestada por sintomas como salivação excessiva, tremores musculares e, em casos graves, convulsões e morte. Essa toxicidade é agravada em animais famintos ou sem adaptação gradual, recomendando-se iniciar com doses baixas e aumentar ao longo de 14-21 dias, sempre misturada a fontes energéticas para sincronizar a fermentação.

Para mitigar esses riscos e elevar a eficiência, as ureias de liberação lenta representam um avanço significativo na nutrição pecuária. Produtos como os revestidos com polímeros liberam nitrogênio de forma gradual, alinhando-se à taxa de fermentação ruminal e melhorando a síntese proteica microbiana. A inclusão de ureia de liberação lenta em dietas de bovinos de corte aumenta o ganho de peso médio diário e melhora a eficiência alimentar, com ganhos expressivos em animais em crescimento, além de reduzir perdas de nitrogênio via urina, promovendo sustentabilidade ao minimizar impactos ambientais, como a eutrofização de águas.

Embora tradicionalmente associada ao período da seca, a suplementação com ureia de liberação lenta revela vantagens igualmente relevantes na estação das águas, quando as pastagens tropicais, como Brachiaria brizantha cv. Marandu ou Urochloa spp., apresentam teores de proteína bruta mais elevados, frequentemente entre 8% e 13%, conforme dados da Embrapa Gado de Corte e da ESALQ-USP, dependendo do manejo e da adubação. Nessa fase, a abundância de forragem verde oferece maior disponibilidade energética, mas o teor proteico ainda pode ser insuficiente para explorar o pleno potencial genético de bovinos de corte em crescimento ou terminação, limitando ganhos diários a valores entre 0,5 e 0,8 kg/animal em sistemas a pasto sem suplementação adicional. A inclusão de ureia de liberação lenta corrige esse desequilíbrio relativo, sincronizando melhor a disponibilidade de nitrogênio degradável com a fermentação abundante de carboidratos nas pastagens de épocas chuvosas, o que eleva a síntese de proteína microbiana, melhora a digestibilidade da fibra e impulsiona o desempenho.

Essa estratégia pode incrementar o ganho de peso em 150-200g diários adicionais durante as águas, permitindo desempenhos acima de 1 kg/dia em sistemas intensivos, com maior eficiência no uso do nitrogênio e redução de excreções urinárias excessivas. Para animais de alto mérito genético ou em recria acelerada, a ureia protegida atua como complemento estratégico de baixo custo, otimizando a taxa de lotação e a produtividade por área, sem os riscos de picos amoniacais da ureia convencional, tornando-a uma ferramenta versátil para maximizar arrobas ao longo de todo o ciclo produtivo (Tabela 1).

Tabela 1 - Meta-análise com dados de experimentos em bovinos de corte suplementados com ureia convencional versus de liberação lenta.



A adoção de suplementação proteica de liberação lenta não é apenas uma tática nutricional sazonal, mas uma visão estratégica para a pecuária sustentável em todo o ano, equilibrando produtividade com responsabilidade ambiental. Ao investir em tecnologias, produtores e técnicos podem transformar variações climáticas em oportunidades consistentes de maior rentabilidade, garantindo mais arrobas no final do ciclo e fortalecendo a cadeia produtiva como um todo.


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