19/08/2021 às 20h00min - Atualizada em 19/08/2021 às 20h00min

Dólar vai a R$ 5,42 com cautela global; ruídos locais seguem no radar

A cautela que imperou nos mercados globais nesta quinta-feira impediu que o mercado de câmbio corrigisse a forte alta da véspera. Se nos demais mercados, como bolsa e juros, o dia foi de ajustes, a busca pela proteção do dólar em todo o mundo forçou a moeda americana para cima no Brasil, mantendo-a nos maiores patamares desde o início de maio.

No encerramento dos negócios, a moeda americana foi cotada a R$ 5,4220, alta de 0,87%, já um pouco distante da máxima do dia, de R$ 5,4555. Outros pares emergentes também sofreram. Nesta tarde, o dólar subia 1,84% contra o rand sul-africano, 0,63% frente ao peso mexicano e 0,43% na comparação com o rublo russo.

O avanço do dólar no Brasil acabou ocorrendo mesmo diante de um noticiário mais ameno na política, tema que tem dominado as atenções dos investidores recentemente.

“Existe essa preocupação com os efeitos da variante delta da covid-19, a sinalização de que o Federal Reserve pode iniciar de fato a redução da compra de ativos ainda este ano, e a queda commodities. Esse receio no exterior acaba gerando um ambiente de incertezas onde o dólar acaba se apreciando no curto prazo”, diz o chefe de renda variável da Zahl Investimentos, Flavio Oliveira.

Apesar de ainda tenso e sem respostas para as principais perguntas do mercado financeiro, o cenário local começou a dar sinais de alguma redução de temperatura. Após insultar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Jair Bolsonaro pediu hoje um “diálogo” com Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Apesar do gesto, Bolsonaro disse que sua voz “continuará sendo usada” e insistiu que pedirá o impeachment para tentar afastar os dois magistrados.

Bolsonaro reconheceu ainda o elo entre a tensão política e o comportamento da moeda americana, que traz reflexos para a economia e a população. "Toda vez que há um problema, se mexe com o dólar. Se mexe com o dólar, mexe com o preço do combustível, tem inflação, tem dor de cabeça para todo o povo. Em especial, o mais pobre. É muito pedir um diálogo, que da minha parte nunca vou fechar as portas para ninguém?", disse.

Outro dirigente que tem ressaltado o papel das preocupações locais, sobretudo sobre o fiscal, na dinâmica dos mercados, é o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em discurso para evento do Council of Americas esta manhã, ele reconheceu que os ruídos recentes estão levando os agentes a reduzir a perspectiva de crescimento em 2022. "Estamos observando isso, é importante entender esse processo", disse, reiterando o compromisso em levar à meta a inflação em 2022.

Campos ponderou que, apesar da melhora dos números fiscais, o ruído "parece ser predominante", mas pode ser reduzido à medida em que o governo explicar como funcionará o o novo benefício. "As pessoas estão conectando as eleições, ou o desejo do governo de produzir algum programa social melhor, com os projetos [econômicos]", notou.

Uma das casas que recentemente rebaixou sua projeção para 2022, de 1,8% pra 1,5% , a TS Lombard nota que a perspectiva se mostra cada vez mais nublada dados os crescentes riscos políticos e fiscais em ano de eleição.

"O presidente Jair Bolsonaro continua a atacar as instituições democráticas em um esforço para manter engajada sua base eleitoral, ao passo que o governo defende a alta dos gastos sociais para elevar as chances de reeleição", diz a consultoria em relatório publicado esta manhã.

"O presidente dificulta a tarefa do BC de colocar os juros na meta, o que significa que as taxas deverão continuar acima do nível neutro por mais tempo".

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