Parte do combate à inflação se dá na frente fiscal, diz presidente do BC

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04/10/2021

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira (04) que “parte do combate” à inflação se dá na frente fiscal. Ele profere palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

“Eu sempre dizia que o BC não era o piloto, o piloto era o fiscal”, afirmou. “O que eu queria dizer era que o fiscal era muito importante para aumentar transmissão da política monetária.”

De acordo com Campos, elevações da Selic podem produzir condições financeiras mais estimulativas e vice-versa, dependendo do quadro fiscal.

Campos repetiu raciocínio que faz com frequência, segundo o qual, em um patamar de alto endividamento público, uma expansão da política fiscal pode ter efeito oposto ao desejado, levando a uma contração da atividade.

As afirmações de Campos foram feitas após comentários de Guilherme Afif Domingos, ex-presidente da ACSP e assessor especial do Ministério da Economia. Segundo Afif, o “dólar está fora do lugar”, como mostram “os recordes sucessivos da balança comercial”. De acordo com ele, a moeda americana “não podia ser mais do que R$ 4,30”, mas está acima disso por causa do quadro fiscal.

“O fiscal, estamos segurando a duras penas, não está fácil em véspera de eleição”, disse Afif, afirmando também que a comunicação do governo federal “não está boa”.

O presidente do BC também disse que a “inflação é o tema mais relevante do momento”, afirmando que “tivemos sequência de choques muito grande e a reabertura da economia”. Na avaliação dele, a inflação de bens e a dos preços administrados foi “contaminando a cadeia”.

“Era importante passar uma mensagem de credibilidade [com alta dos juros]”, disse. Atualmente, a Selic está em 6,25% ao ano.

Na palestra, ao ser questionado sobre o câmbio, Campos também afirmou que não abordou “o dólar porque ele é flutuante”.

Câmbio

Campos afirmou que a intervenção no câmbio ideal “é uma que mantém conexão entre os preços, características de hedge que os ativos precisam ter, mas que ao mesmo tempo não deixa que haja ruptura por problemas de liquidez”.

Questionado no evento sobre o câmbio, o presidente do BC citou dois exemplos “extremos”. No primeiro, em que o BC não intervém em nenhuma hipótese, há uma “volatilidade enorme” na moeda que é prejudicial à economia.

O segundo exemplo, em que o BC faz uma “intervenção constante”, pode levar a autoridade monetária a vender todas as suas reservas internacionais ou o mercado a precificar em outros ativos, como a curva longa de juros, o risco que enxerga para o país.

Campos reforçou que o BC acredita no princípio da separação entre políticas monetária e cambial.

Segundo ele, não foram apenas os termos de troca do Brasil que não responderam recentemente à elevação dos preços de commodities internacionais. Mas ele disse que essa quebra de relação em parte se deve “à dívida maior, em parte é incerteza”. “Pode ter incerteza política, várias coisas”, disse.

Ele afirmou que “olhando para a frente, acertando nosso tema de credibilidade fiscal, temos tudo para crescer, entrar recursos”.

No evento, o presidente ainda destacou que a “recuperação do emprego está cada vez mais segmentada”, com setores apresentando desempenho diferentes. “É um problema estrutural e o melhor remédio é crescimento”, disse, defendendo que a “reinvenção do crescimento pós-pandemia tem que ser” com recursos privados.

Ainda nesta segunda-feira, o presidente do BC afirmou que há “alguns indícios” de que o emprego informal ocupará dentro da economia mais espaço do que ocupava antes. Além disso, defendeu que “neste momento obviamente é importante o governo dar uma assistência para desassistido”. “No médio prazo, é melhor dar emprego”, afirmou.

Energia elétrica

Campos afirmou que a energia elétrica é um item que se “propaga na cadeia” inflacionária. Segundo o presidente do BC, a autoridade monetária não faz declarações sobre os impostos que incidem sobre a energia, mas esse é “um tema que o governo deveria discutir”.

“Na bandeira [tarifária], se pensar que ela sobe de R$ 1,20 para R$ 14,40, e o imposto é proporcional, ele sobe”, disse.

Na avaliação de Campos, o mercado livre de energia “é um que tem muito espaço para crescer”.

Ele relatou que tem “muita preocupação com essa questão [de preços] administrados”. Também disse que, próximo de um encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC ligou para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a fim de entender qual era a conjuntura.

“Entendemos que naquele momento era importante ser conservador [nas hipóteses]”, afirmou.

Durante a palestra, Campos ainda disse que o “crescimento do crédito continua, obviamente em um nível menor”.

Crescimento estrutural

Campos também afirmou que o crescimento estrutural do Brasil é menor do que o de outros países.

“O crescimento estrutural do Brasil, se esquecer a pandemia, é um pouco mais baixo do que outros países”, disse, ao comentar as revisões para baixo das projeções para a alta do Produto Interno Bruto (PIB) do ano que vem. Ele defendeu a realização de reformas para elevar o crescimento estrutural.

Campos também disse que “uma coisa que é clara [pós-pandemia] é que é um mundo endividado”. Mas comemorou a situação do País. Afirmou que o Brasil está “avançando bastante na vacinação”.

No início de sua fala, Campos relatou que Afif “às vezes me liga preocupado”. “[Afif diz:] vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, afirmou.

Reprecificação

Campos afirmou que “precisamos ter certeza de que a gente mantém o arcabouço fiscal”. “Se o mercado achar que não tem mais teto, Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), veremos reprecificação dos ativos”, disse.

Campos disse que atualmente há “um grande ruído” sobre as contas públicas, “ainda mais chegando próximo das eleições, de qual vai ser a política fiscal daqui para a frente”.

Ele voltou a defender a importância de “virar a página” sobre a discussão de como o novo programa social do governo federal será financiado, afirmando que essa discussão está parada há aproximadamente três meses.

Campos reiterou, no entanto, que as projeções para a dívida bruta vêm caindo, estando atualmente entre 81% e 82% do PIB.

Segundo ele, “a inflação ajuda” a diminuir a dívida, mas a análise mostra que há outros efeitos atuando nesse sentido, como a redução de déficit primário e o aumento estrutural da receita recorrente.

O presidente também disse que a opinião do mercado, de acordo com as projeções, é que não haverá explosão da dívida no ano que vem.

Economias emergentes

O presidente do BC afirmou que “é importante ver” como alguns fatores afetarão as economias emergentes. Entre os fatores citados por ele, estão uma “pequena correção de juros” no exterior e mudanças na demanda por energia.

Campos também disse que há “alguns indícios” de que o emprego informal terá maior participação na economia no período pós-pandemia.

Ele ainda afirmou que o BC tem “trabalhado muito no setor de segurança” do Pix e disse que o aumento de incidentes criminosos “está muito mais ligado à reabertura da economia do que com o instrumento”.

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