Juros futuros têm alta firme com adiamento de reforma do IR e risco fiscal

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12/08/2021

O novo adiamento da reforma do Imposto de Renda (IR), equivalente à segunda etapa da reforma tributária, aumentou a cautela já presente entre os participantes de mercado nesta quinta-feira (12), gerando alta firme dos juros futuros ao longo de toda a curva a termo.

Além disso, o risco de deterioração da política fiscal, com vistas para a incerteza sobre a integridade do teto de gastos, a pendente proposta de emenda à Constituição (PEC) dos precatórios e a indefinição sobre o tamanho do novo Bolsa Família, também contribuiu para elevar as taxas.

Finalizado o pregão regular, às 16h, o juro do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 6,52% no ajuste anterior para 6,58% e o do DI para janeiro de 2023 avançou de 8,13% para 8,25%; já o do contrato para janeiro de 2025 anotou alta de 9,08% para 9,21% e o do DI para janeiro de 2027 escalou de 9,48% para 9,60%.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), insistiu em manter a votação do texto da reforma do IR hoje, mas recuou da ideia durante a tarde, ao anunciar o adiamento para a próxima terça (17) da apreciação da matéria. A decisão do deputado foi tomada a pedido da maioria dos líderes partidários. Lira reclamou que a postergação da análise da proposta só vai servir para que “as corporações continuem a trabalhar dentro da câmara para manter privilégios”.

Segundo Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da Renascença e ex-chefe do Departamento de Operações do Mercado Aberto (Demab) do Banco Central, o adiamento da reforma do IR “se soma aos aumentos dos riscos de populismo fiscal em ano eleitoral”, justificando, deste modo, os avanços firmes das taxas futuras de médio e longo termo.

Os investidores se encontram temerosos não apenas sobre o rumo da reforma tributária, mas também a respeito do aumento das despesas com as dívidas decorrentes de decisão judicial e a ideia de um programa social que substitua o Bolsa Família com um valor mais graúdo aos beneficiários.

“O risco fiscal recrudesceu”, observa a XP Investimentos, em relatório mensal, notando que o principal risco “reside na tramitação da PEC que altera a forma da União pagar precatórios”.

Segundo os profissionais da XP, em um cenário de política fiscal mais expansionista, em meio às discussões sobre o projeto de IR e a proposta sobre o parcelamento dos precatórios, a taxa Selic poderá chegar a 9,5% em 2022. O cenário básico da instituição financeira é de que a taxa básica feche este ano e o próximo a 7,25%.

O contrato de DI mais negociado da sessão de hoje, inclusive, foi o com vencimento em janeiro de 2022, vértice mais ligado à trajetória de política monetária e aos indicadores macroeconômicos. Às 17h09, o número total de contratos negociados desse vencimento era de 880 mil, bem acima da média diária de 2021 de 564 mil.

Hoje, ocorreu a divulgação do volume de serviços em junho, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dado relevante para a atuação do BC, que sustenta que a alta dos preços de serviços, em meio ao progresso da vacinação e à reabertura, é um risco para a desancoragem das expectativas de inflação de 2022. O setor terciário avançou 1,7% na margem, superando a mediana das expectativas de crescimento de 0,4%, segundo mediana apurada pelo Valor Data, mantendo os juros curtos pressionados ao longo do dia.

Em congresso promovido pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que a autoridade monetária tem reconhecido o aumento da inflação de serviços, ao mesmo tempo em que a crise hídrica vem gerando reprecificações na inflação de curto prazo. Mais importante, ele reforçou o compromisso da instituição com a persecução da meta de inflação.

“A mensagem do BC é que vamos fazer o que for preciso para ancorar as expectativas e trazer a inflação para a meta”, afirmou Campos Neto. Segundo o banqueiro central, a alta da inflação implícita (taxa de inflação embutida nos títulos públicos do governo) de longo prazo “está muito ligada à questão fiscal”.

Para o estrategista da Tullett Prebon Vinicius Alves as declarações do banqueiro central, em conjunto, tiveram um tom “marginalmente hawkish [inclinado à retirada de estímulos monetários]”, também amparando a pressão de alta nas taxas curtas. “Campos Neto falou em fazer o que for preciso para ancorar as expectativas e também notou a piora do risco fiscal”, pontua o profissional.

A estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patricia Pereira, segue a mesma linha de raciocínio. “Campos Neto manteve a linha mais dura, com direito até a falar em convergir a inflação em direção à meta sob qualquer hipótese, no seu momento ‘whatever it takes’”, aponta.

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