Juros futuros fecham perto da estabilidade com riscos político e fiscal no radar

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

06/08/2021

A perspectiva de resolução das tensões políticas entre o Executivo e o Judiciário, ainda que em meio à continuidade do impasse fiscal, limitaram nesta sexta-feira (6) o movimento das taxas futuras, que encerraram a sessão rondando os ajustes do dia anterior, após a disparada vista na semana.

Finalizado o pregão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 6,47% no ajuste anterior para 6,48%; a do DI para janeiro de 2023 ficou inalterada a 8,17%; a do contrato para janeiro de 2025 operou sem alterações, a 9,08%, e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 9,39% para 9,41%.

Além de avaliarem questões domésticas, agentes financeiros estiveram atentos aos números acima do esperado do relatório de empregos dos Estados Unidos em julho, indicando forte recuperação do mercado de trabalho americano e reacendendo o debate sobre o início do processo de redução de estímulos no país.

O contrato de DI mais negociado era o com vencimento em janeiro de 2023, com giro de 840 mil negócios às 16h54, bem acima da média diária de contratos negociados desse vértice em 2021, de cerca de 480 mil.

Segundo o sócio e gestor de fundos multimercados da Quantitas, Rogerio Braga, houve um conjunto de catalisadores que apontaram para direções diferentes nesta sexta, o que fez o mercado de juros ter um comportamento errático ao longo do dia.

“Por um lado, tem inflação preocupando o Banco Central, a questão fiscal trazendo muito ruído no noticiário e a taxa de dez anos nos Estados Unidos deu uma andada de ontem para hoje, o que demanda mais prêmio. Por outro, a curva local já andou muito, a longa está com bastante prêmio, o que tende a empurrá-la para baixo, e a linguagem mais dura do BC também deveria empurrar esse juro longo para baixo”, aponta Braga. “Então, é natural que o mercado fique um pouco errático.”

Apesar do fechamento perto da estabilidade hoje, os juros de longo prazo, dispararam na semana, refletindo o temor de deterioração na trajetória das contas públicas, com foco na possível flexibilização do teto de gastos para acomodar um Bolsa Família mais parrudo, que pague até R$ 400 para os beneficiários, como pretende o presidente Jair Bolsonaro, em um contexto de inesperado aumento no volume de precatórios, que deverão ser pagos pela União em 2022, classificado como “meteoro” pelo ministro Paulo Guedes.

Vale citar também que a aprovação no Senado do Refis (programa que parcela débitos tributários) com condições flexíveis, ontem, ajudou a elevar a cautela fiscal dos investidores. Com isso, a taxa do DI com vencimento em janeiro de 2027 saiu de 9,04% na sexta passada (30) para 9,41%, hoje, após máxima de 9,59% alcançada mais cedo. Os juros de um contrato de DI mais longo, como os para janeiro de 2031, deixaram os 9,45% do fim da semana passada e encerraram esta sexta em 9,84%, depois de atingir o pico acima de 10%, na esteira da percepção de maior risco fiscal, enquanto as relações entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) se tornam mais frágeis e ruidosas.

Na sessão desta sexta, porém, a diminuição da temperatura política contribuiu com a acomodação dos juros futuros. Quem apelou ao apaziguamento dos ânimos foi o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, pedindo ao presidente do STF, Luiz Fux, que não interrompa o diálogo com Bolsonaro. Na véspera, Fux cancelou a reunião de três poderes em resposta a ataques do chefe do Executivo a membros da corte.

Mais cedo, Bolsonaro havia voltado a se referir ao Supremo, ao afirmar que não ofendeu nenhum ministro da suprema corte e que, ao se referir ao magistrado Luiz Roberto Barroso, apenas falou da “ficha” do ministro.

“Ainda não temos conclusão desse assunto e não é uma fala do Pacheco que vai resolver. Mas, aparecendo moderadores, seja o Pacheco, seja o Lira, sejam outras instituições, sempre é bom. Achei a fala do Pacheco em um tom bom, importante para acalmar os ânimos, mas resolver não resolve, tem que desenrolar um pouco mais”, avalia Braga, da Quantitas.

O exterior foi fonte de pressão de alta nos juros locais, especialmente os de maior termo, ao longo do dia. Isto porque a taxa projetada pelo título do Tesouro americano (Treasury) de dez anos salta quase 8 pontos-base no momento, e volta a operar acima da faixa de 1,30%, nos maiores níveis desde 15 de julho. O comportamento reflete os números acima do esperado do relatório de empregos dos EUA.

Em julho, houve criação de 943 mil postos de trabalho, ante estimativa de 845 mil, segundo economistas ouvidos pelo “Wall Street Journal”. Ademais, a taxa de desemprego americana recuou de 5,9% em junho para 5,4% em julho — a expectativa era de baixa para 5,7%.

“As condições do mercado de trabalho indicam que a economia está progredindo em direção ao limiar do ‘tapering’ [processo de redução de compra de ativos] do Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA]”, diz o Barclays, em relatório. “Esses ganhos robustos devem manter o Fed no caminho certo para sinalizar sua intenção de ‘tapering’ em setembro.”

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