Juros futuros disparam em reação à questão fiscal e decisão do Copom

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05/08/2021

Em uma sessão dominada pela aversão a risco com foco na questão fiscal e pela reação dos investidores aos sinais mais agressivos do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na elevação da taxa Selic, os juros futuros fecharam a quinta-feira (5) em disparada, com avanços que superaram os 30 pontos-base (0,3 ponto percentual) em relação ao ajuste anterior nas porções intermediária e longa da curva.

Finalizado o pregão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 6,34% no ajuste anterior para 6,48%; a do DI para janeiro de 2023 avançou de 7,88% para 8,175%; a do contrato para janeiro de 2025 foi de 8,78% para 9,09% e a do DI para janeiro de 2027 escalou de 9,10% para 9,41%.

O volume de contratos negociados especialmente na parcela curta da curva, mais sensível à política monetária, se mostrou expressivo hoje. Às 16h25, o contrato de DI mais negociado era o com vencimento em janeiro de 2023, com giro de 1,36 milhão de negócios — a média diária de contratos negociados desse vértice em 2021 é de 470,2 mil.

As taxas futuras dispararam ao longo de toda a curva a termo, em movimentos mais pronunciados nas porções intermediária e longa, com o acúmulo de riscos fiscais e políticos no radar de agentes financeiros. “O mercado até chegou a abrir com a curva de juros achatando pela interpretação ‘hawkish’ [inclinação à retirada de estímulos monetários] da decisão do Copom. Mas o clima político, com as declarações de [Jair] Bolsonaro, podem estar gerando medo de aumento do populismo”, afirma um operador de renda fixa de um banco.

Além de defender recentemente um Bolsa Família turbinado, com valor de até R$ 400, o presidente da República tem escalado o tom de ataques ao Judiciário, em um momento de fragilidade política do governo, baixa popularidade do presidente e receios sobre a manutenção da âncora fiscal no teto de gastos.

Pela manhã, Bolsonaro, em entrevista à Rádio Jovem Pan, voltou à carga contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, dizendo que “a hora dele vai chegar”, em referência à inclusão do presidente no inquérito das fake news. O chefe do Executivo também acusou Moraes de agir “fora das quatro linhas da Constituição”.

Em um contexto político que já inspira cautela, outro aspecto que deixou os mercados nervosos foi o parecer do Refis (programa que parcela débitos tributários) do senador Fernando Bezerra (MDB-PE). A iniciativa é destinada a microempresas, incluídos os microempreendedores individuais (MEIs), e a empresas de pequeno porte, inclusive as que se encontrarem em recuperação judicial, optantes pelo Simples Nacional.

O parecer propõe um prazo de pagamento do débito de até 180 meses após o pagamento da entrada, sem redução em acréscimos legais, considerando o pagamento da primeira parcela em setembro deste ano. “Parece uma proposta bem flexível mesmo”, avalia Vinicius Alves estrategista da Tullett Prebon.

Um gestor de um grande banco aponta que, com uma possível piora da arrecadação advinda do projeto, a saúde das contas públicas, que surpreendeu positivamente no primeiro semestre, pode ser penalizada daqui para a frente. “Também mantenho a leitura de que a situação política tem deixado o mercado mais tenso, conforme Bolsonaro avança nos ataques o STF”, diz este profissional.

O Copom foi outro catalisador dos juros. Além de entregar alta de 1 ponto percentual da Selic e sinalizar outro ajuste de mesma magnitude para a reunião de setembro, o comitê passou a considerar adequado que a taxa básica de juros fique acima do patamar neutro ao fim do ciclo para combater a persistente inflação ao consumidor e conter o avanço das expectativas para 2022.

“Foi uma decisão em que o BC acertou em tudo, da decisão em si aos próximos passos”, disse Patricia Pereira, estrategista-chefe da MAG Investimentos. Segundo ela, a autoridade aumentou o tom no compromisso com a ancoragem da inflação na meta “a qualquer custo” e, para ela, o comunicado tende a “segurar” as expectativas de inflação para o horizonte relevante.

O principal risco que faria o BC acelerar o ritmo de alta da Selic seria o fiscal, aponta Patricia. “A qualidade da inflação já está bem deteriorada, então a barra é alta para que uma mudança na composição dela force o BC a um ajuste ainda maior. E as expectativas devem, agora, se manter paradas no Focus, o que me faz entender que a elevação do risco fiscal, com possível flexibilização do teto, é que poderia levar o BC aumentar juro em 1,25 ponto em setembro”, disse ela. A MAG prevê alta de 1 ponto do juro no próximo Copom e manteve projeção de Selic de 7,5% ao fim de 2021.

A curva de juros, inclusive, já precifica chance majoritária, de 92%, de elevação de 1,25 ponto do juro básico em setembro, ante possibilidade de 8% de alta de 1 ponto, se só estas alternativas forem consideradas. As opções de Copom precificam probabilidade de 73% para aperto de 1 ponto e de 20% para alta de 20%. Hoje, a taxa Selic implicada na curva DI já é superior a 8% para o fim de 2021.

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