Juros futuros avançam com tensão política

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

08/09/2021

Em reação ao tensionamento institucional entre o Executivo e o Judiciário após os atos do 7 de Setembro favoráveis ao governo Jair Bolsonaro, os agentes financeiros ampliaram a postura defensiva recente e impulsionaram os juros de mercado nesta quarta-feira (8). A piora da percepção de risco dos investidores ficou mais visível pela performance das taxas futuras de médio e longo prazo, que saltaram cerca de 20 pontos-base (0,20 ponto percentual) em comparação ao ajuste anterior — superando, assim, os dois dígitos.

No fim do pregão regular, o juro do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 6,87% para 6,96%; o do DI para janeiro de 2023 escalou de 8,63% para 8,775%; o do contrato para janeiro de 2025 anotou alta de 9,80% para 10,03%; e o do DI para janeiro de 2027 avançou de 10,27% para 10,51%.

Cabe pontuar ainda que a sessão foi de grande volume de negociações. Por volta das 16h20, o contrato mais negociado era o do DI com vencimento em janeiro de 2023, com giro de 674 mil negócios. A média diária de contratos negociados desse vértice em 2021 é de 504 mil. O volume financeiro dessas operações somava cerca de R$ 60 bilhões.

“O ambiente turbulento em Brasília e também uma piora nas projeções econômicas tiveram impacto na curva de juros no Brasil”, avalia Carlos Messa, sócio e gestor da Quasar. “Tivemos uma deterioração na perspectiva fiscal com o risco de rompimento do teto de gastos, aumento nas projeções de inflação para 2021 e 2022 e aumento da expectativa do ciclo de elevação dos juros”, observa o profissional, ao apontar, adicionalmente para a crise hídrica e para os impactos na expectativa de crescimento. “Vemos o cenário com muita cautela, mas não achamos que seja um cenário de ruptura ou de uma crise mais profunda”, diz Messa.

Durante o pregão, além das manifestações de 7 de setembro e das declarações do presidente Jair Bolsonaro, o mercado também reagiu a relatos sobre paralisações de caminhoneiros em alguns pontos do país. No início da tarde, as taxas futuras chegaram a abandonar as máximas após o pronunciamento do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), mas o ambiente ainda tenso e a informação de que caminhões ocuparam a Esplanada dos Ministérios e de que houve pressão para derrubar o bloqueio que dá acesso ao Supremo Tribunal Federal (STF) pesaram.

Para Ulisses Nehmi, CEO da Sparta, a exigência por prêmios de risco mais elevados no mercado resulta “em perdas para os ativos de risco no curto prazo, e, potencialmente, em custos mais elevados para os tomadores de recursos”. Nehmi aponta, adicionalmente, que a Sparta acompanha a evolução do cenário macroeconômico e que, no momento, tem dado preferência a posições em renda fixa pós-fixada ou indexadas à inflação com prazos mais curtos.

A AZ Quest também reduziu a exposição a ativos brasileiros diante das incertezas domésticas. “Os ruídos políticos se sobrepuseram à agenda econômica e observamos a queda da bolsa, alta do dólar e taxas de juros em elevação”, apontam os profissionais da gestora em carta referente ao mês de agosto. Para eles, embora os indicadores fiscais do governo tenham exibido uma melhora “significativa” da situação corrente, “o mercado passou a considerar um descumprimento do teto de gastos e um eventual descontrole nas contas públicas em função das questões envolvendo as dívidas com precatórios e o novo programa de transferência de renda do governo”.

No mercado de juros, a AZ Quest manteve a alocação direcional reduzida e montou pequena exposição que aposta em uma diminuição da diferença entre as taxas dos DIs para janeiro de 2022 e para janeiro de 2023. “Em juros reais, montamos posições compradas em NTN-Bs longas por acreditar que o carrego pela inflação é atrativo, os níveis das taxas ao redor de 5% são elevados e a componente técnica sustenta a posição com grandes compradores institucionais nesses preços”, dizem os gestores.

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