Ibovespa fecha em queda com cenário político e riscos fiscais

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

17/08/2021

A trajetória negativa para os ativos de renda variável do Brasil continuou nesta terça-feira, dia em que as vulnerabilidades locais amplificaram os efeitos negativos de um cenário externo menos inclinado à tomada de risco. O Ibovespa encerrou o pregão em queda de 1,07%, aos 117.903,81 pontos, mas se afastou das mínimas do dia, quando marcou 116.248 pontos, em baixa de 2,46%. Foi o menor encerramento para o índice desde o dia 4 de maio.

Os crescentes ruídos políticos e seus possíveis impactos na trajetória fiscal do país continuam sendo citados pelos investidores como o fator primordial para a baixa demanda por ações locais, que já acumulam perdas de quase 10% em relação ao pico histórico de junho.

Agravando a dinâmica da bolsa, profissionais relatam que fatores técnicos também contribuíram com o movimento acelerado de vendas nesta terça-feira.

Segundo o gestor de portfólio da Lifetime Investimentos, Alex Lima, a recente escalada das tensões políticas em Brasília pode ser apontada como responsável por uma queda de cerca de 5,4 mil pontos do Ibovespa desde as máximas registradas no mês de junho, o que corresponderia a 42% do movimento negativo do índice.

Uma análise de sentimento de mercado elaborada pelo profissional, com a finalidade de quantificar a relação entre as manchetes da mídia especializada e jornais contendo palavras associadas à crise, encontrou uma correlação forte entre os ruídos políticos em Brasília e a variação do Ibovespa.

“A desarmonia entre os Poderes está tirando o prêmio de otimismo que havia na bolsa, de que nós iriamos aprovar uma reforma tributária e administrativa. Cerca de 45% da queda recente é explicada por essa martelada do risco político”, calcula Lima.

Analistas também apontam que fatores técnicos importantes foram testados no pregão desta terça-feira e acabaram ampliando a volatilidade e o movimento de vendas durante a tarde.

Conforme análise técnica do Itaú BBA, o patamar dos 117 mil pontos é a região é por onde se situa a média móvel de 200 dias (MM200) do Ibovespa e consiste no suporte mais importante da atual tendência negativa de curto prazo.

Operadores das mesas de renda variável relataram que o movimento de queda do Ibovespa ganhou força depois de o índice perder a MM200, disparando ordens de “stop loss”- mecanismo que dispara uma ordem de venda quanto um ativo atinge uma perda máxima aceitável anteriormente estabelecida. “Essa demora a chegar, mas quando vem, aí tem ‘stop’ de verdade”, comenta um profissional de uma corretora nacional.

Outro profissional de um grande banco explica que o dia foi marcado por uma conjunção de fatores negativos. “Para a queda da bolsa, há motivo político, há motivo fiscal e há motivo técnico. Sair dessa espiral negativa demandaria uma notícia ótima”, aponta.

Nos últimos dias, as ações locais vinham se descolando das bolsas de Nova York e da Europa, que enfileiravam recordes sucessivos. Hoje, uma realização de lucros no exterior encontrou a fragilidade do cenário doméstico, contribuindo para o aumento da aversão ao risco na bolsa local.

Segundo o estrategista-chefe da Davos Investimentos, o exterior mais negativo foi o estopim para um novo dia de aversão ao risco generalizada na bolsa brasileira. “Tem uma hora que a água transborda. Vai enchendo de notícias ruins, até a hora que não cabe mais e você tem essa avalanche de ordens de venda e de mau humor generalizado”, afirma.

Para o economista-chefe da Órama, Alexandre Espirito Santo, um movimento de correção no exterior era mais que esperado, dadas as altas recentes. No entanto, o cenário local segue frágil e o otimismo que os agentes financeiros vinham apresentando parecia injustificado. “Eu vinha já há algum tempo questionando essa onda muito positiva do mercado aqui dentro, dado que a gente tinha muitos fatores potencialmente ruins”, afirma, citando a incerteza sobre a aprovação e a qualidade questionável das reformas propostas atualmente, além dos ruídos políticos e fiscais. “As nuvens estão muito carregadas e, para onde você olha, há incertezas. Acho difícil o investidor dar uma de valente nesse momento”, diz.

O otimismo menor com a renda variável local também foi capturado pela pesquisa mensal realizada pelo Bank of America (BofA). Incertezas com o ambiente global, riscos fiscais e o ciclo de aperto monetário promovido pelo Banco Central para fazer frente à inflação reduziram amplamente o percentual de gestores que acreditam em um Ibovespa acima de 130 mil pontos no fim do ano.

Segundo a pesquisa Latam Fund Manager Survey (FMS), apenas 49% dos profissionais consultados em agosto dizem acreditar que o principal índice local da bolsa de valores venha a superar o patamar no término de 2021, uma queda em relação aos 78% do mês passado.

Apenas 10% acreditam que o índice vá fechar o ano acima dos 140 mil pontos, percentual que era de 22% na última pesquisa. Pouco mais de 20% dos investidores também acredita que o índice deva encerrar o ano entre os 120 e 130 mil pontos no período.

Ainda, de acordo com o BofA, apenas 35% dos gestores consultados pela pesquisa acreditam que as ações brasileiras vão apresentar desempenho superior a outras classes de ativos nos próximos seis meses. A parcela é muito inferior à média histórica, próxima de 70%, e é a menor já registrada desde o início da pesquisa regional, em março de 2018.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *