Forças Armadas devem ser apolíticas e profissionais, diz chefe do Comando Sul dos EUA

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23/09/2021

Em meio ao flerte de militares com o discurso de afronta às instituições do presidente Jair Bolsonaro, o almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, afirmou nesta quinta-feira que as Forças Armadas devem se pautar pelo “profissionalismo” e manter um papel “apolítico” nas democracias.

Após 38 anos de carreira e três à frente do Comando Sul, que responde por toda a América Latina e Caribe, Faller se aposenta do serviço militar americano em 29 de outubro e escolheu o Brasil como destino de sua última viagem profissional na ativa.

Ele se reuniu na quarta-feira com os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Nesta quinta, em entrevista a um pequeno grupo de jornalistas, foi bastante questionado sobre as manifestações do 7 de Setembro e sua avaliação sobre o papel das Forças Armadas em uma democracia.

“Uma das coisas que mais me satisfazem em ter pertencido tanto tempo às Forças Armadas é que somos apolíticos e fizemos um juramento à Constituição. Nos meus contatos com militares brasileiros durante os últimos três anos [tempo à frente do Comando Sul], eu acredito que eles compartilham a mesma visão sobre o que é o profissionalismo militar”, disse Faller.

Ele continuou: “O propósito das Forças Armadas é apoiar e defender a Constituição. É para isso que fizemos um juramento. Nos Estados Unidos falamos de fidelidade aos nossos concidadão. Não é um juramento a nenhum líder [político].”

Minutos depois, Faller reiterou a “natureza apolítica” dos militares e disse ter confiança de que seus colegas brasileiros têm trabalhado para “fazer a coisa certa”.

Questionado sobre o suposto relacionamento de Bolsonaro e seus filhos com grupos milicianos no Rio de Janeiro, ele foi bastante cuidadoso com as palavras. “Nunca estudei em detalhes nenhuma interação das milícias com a família do presidente”.

O almirante também se encontrou ontem com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Laerte de Souza Santos, e ainda segue para o Rio de Janeiro, onde fará visita à Escola Superior de Guerra (ESG) e às operações do Comando da Marinha. Ele afirmou que a parceria dos Estados Unidos com o Brasil na área militar “nunca foi tão forte”.

Venezuela

Feller também falou sobre o que considera serem as principais ameaças à região e abordou a situação da Venezuela. Para ele, o país se transformou em um “abrigo seguro” para o tráfico de drogas e o presidente de Nicolás Maduro “continua a seguir um caminho ilegítimo” e conta com o apoio de Rússia, China e Irã para se manter no poder.

Para o almirante, “qualquer solução [para a Venezuela] será complexa e vai requerer tempo”. “Mas, à medida que Maduro falha, tem havido um senso de unidade internacional para levar adiante soluções diplomáticas.”

Na avaliação dele, o fortalecimento de organizações criminosas transnacionais está no topo das ameaças às instituições democráticas na América Latina e no Caribe – área sob responsabilidade do Comando Sul.

Em alguns países da América Central, afirmou, o orçamento e o armamento dessas organizações supera os do próprio Estado. “O tráfico de drogas é apenas uma parte do seu modelo de negócios, que envolve tráfico de pessoas, extorsão, armas, mineração e desmatamento ilegal. A corrupção é o combustível que alimenta as instituições democráticas.”

“Infelizmente, para a Venezuela, o regime Maduro continua a seguir um caminho ilegítimo e de abusos aos direitos humanos muito bem documentados pelas Nações Unidas. Há uma ligação com organizações criminosas transnacionais na Venezuela, que é essencialmente um abrigo seguro para o narcotráfico”, disse.

Faller afirmou que um dos temas de suas conversas em Brasília foi justamente como confrontar essa situação. Segundo ele, na condição de segunda maior democracia do continente e detentor de instituições fortes, o Brasil é visto como parceiro dos Estados Unidos na busca por soluções.

“Tem que haver uma solução democrática. É o que as Nações Unidas têm advogado. No entanto, temos países como Rússia, China e Irã trabalhando para manter Maduro no poder”, disse o almirante, que esteve três anos à frente do Comando Sul e se aposenta no dia 29 de outubro.

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