Crise institucional faz dólar ter a maior alta diária desde junho de 2020

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08/09/2021

As manifestações do 7 de setembro e a postura do presidente Jair Bolsonaro, que dobrou a aposta no confronto com os demais Poderes e na ameaça de ruptura institucional, detonaram um movimento de forte aversão ao risco nos mercados locais. No câmbio, isso significou uma forte busca pela proteção do dólar, que teve a maior alta diária em mais de um ano.

No encerramento dos negócios, a moeda americana foi negociada a R$ 5,3276, alta de 2,93% e a máxima do dia. Este foi o maior salto do dólar em um único pregão desde 24 de junho do ano passado, quando a moeda subiu 3,36%. O real foi, assim, a pior moeda do dia com folga – praticamente o dobro da desvalorização registrada pela segunda colocada, a lira turca, contra quem o dólar subia 1,48% no horário de fechamento.

No início da tarde, a pressão sobre o câmbio chegou a arrefecer após pronunciamento do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O deputado adotou um tom conciliador, afirmou que a Casa não vai patrocinar a revisão de questões “tomadas e superadas, como a do voto impresso”, mas também não mencionou a discussão sobre o impeachment.

No entanto, o alívio durou pouco e a moeda americana voltou a acelerar ganhos após o discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Ele afirmou que “ninguém fechará” o STF e afirmou que desobediência é crime de responsabilidade. Ontem, Bolsonaro afirmou que não iria mais aceitar decisões tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes.

Na avaliação de um estrategista de uma grande corretora local, é difícil precisar o que assusta investidores em relação ao desfecho de ontem – se o risco de um impeachment, de paralisação dos trabalhos em Brasília ou seus desdobramentos para a corrida eleitoral do ano que vem. “Mas deixou um gosto ruim de incerteza na boca do povo”, acrescentou.

Com Bolsonaro adotando um tom de agressividade nos discursos nos atos a favor de seu governo ontem, o real deve ter uma rodada de enfraquecimento, avalia Brendan McKenna, economista internacional e estrategista de câmbio do Wells Fargo. “Acho que, à medida que o Bolsonaro se torna mais agressivo com o Supremo Tribunal Federal e outras instituições no Brasil, a moeda provavelmente ficará sob pressão”, diz o profissional, que está baseado em Nova York.

De acordo com McKenna, as manifestações do 7 de Setembro e a preparação para as eleições presidenciais de 2022 “acabarão resultando em um real mais fraco”. “As manifestações poderiam ter piorado muito do ponto de vista da segurança, e felizmente isso não aconteceu, mas acho que, se Bolsonaro continuar a pedir a seus apoiadores para se manifestarem a seu favor, as condições podem se tornar mais hostis”, diz economista do banco americano.

“Caso esse cenário se concretize, a venda generalizada de reais pode ser bastante acentuada. A moeda já é frágil, mas o mercado de juros poderá ficar igualmente fragilizado”, aponta ele. Para McKenna, conforme a moeda brasileira se enfraquece, não seria tão surpreendente se os mercados brasileiros de juros e de dívida soberana também experimentassem um processo de deterioração.

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