Brasil deve mostrar como zerar desmatamento para não ser o vilão da COP26, diz embaixador dos EUA

23/07/2021

O embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Todd Chapman, disse nesta quinta-feira que o Brasil terá de mostrar na 26ª Conferência do Clima, em novembro, como pretende zerar o desmatamento ilegal até 2030 e as emissões de carbono até 2050, ambos compromissos que o país assumiu perante a comunidade internacional. Segundo ele, isso definirá se o Brasil sairá como “herói” ou “vilão” da COP26.

Chapman, que deixará a missão diplomática americana nos próximos dias, recebeu jornalistas para um café da manhã em sua residência oficial. Na conversa, ele reconheceu que o Brasil tem programas e iniciativas “progressistas”, como o uso de carros a etanol e energia hidrelétrica, e que pode ser “líder mundial” em meio ambiente.

Alertou, porém, que de nada adiantará o país apresentar seu passivo ambiental, relativamente melhor do que o dos demais países, se a Amazônia continuar a ser desmatada no ritmo atual, com seguidos recordes.

“Você poderiam anunciar tudo isso com orgulho se vocês não estivessem desmatando a Amazônia. Resolvido isso, vai abrir portas para vocês”, disse o embaixador. “Este é o seu momento de não ser o vilão e ser o herói. Este é o seu momento. Todo o Brasil tem que se juntar para ser o herói, que pode ser, e que em muitos aspectos é.”

Chapman classificou como “importantes” os compromissos assumidos por Jair Bolsonaro em carta uma enviada em abril ao presidente dos EUA, Joe Biden. Na ocasião, o brasileiro prometeu acabar com o desmatamento ilegal ao fim desta década, além de tornar o país neutro em emissões de carbonos até 2050.

“Esses compromissos são importantes. Agora, temos que ver como fazer. Eu acho que essa [COP26] é a nova oportunidade de o governo mostrar o plano de como vai chegar a isso”, afirmou, acrescentando que seria importante a comunidade internacional conhecer esse plano antes da conferência. “[Seria melhor] apresentar antes, chega lá com isso anunciado. E todos podem aplaudir. Esse é o caminho.”

O diplomata também sugeriu que o Brasil se dedique a negociar na conferência a criação de um mercado internacional de carbono, pois é o país que mais tende a ganhar com isso.

De saída do Brasil, o embaixador americano disse que a prioridade dada ao clima talvez tenha sido o tema em que houve maior mudança na transição entre os presidentes Donald Trump e Joe Biden, que assumiu em 20 de janeiro.

“Talvez [o meio ambiente] foi o tema em que houve mais mudança na posição entre as administração Trump e Biden. Não em termos da importância do tema, mas talvez na análise de prioridade”, afirmou. “Ficou bastante claro para mim, fazendo essa transição de governos, que foi necessário aumentar a importância disso em minhas conversas em todo o governo [brasileiro]. E foi exatamente o que eu fiz.”

Ele afirmou ainda que “há preocupação com o [fato de que o] desmatamento ilegal no ano passado e neste ano continuarem fortes”.

“É um tema que é importante de buscar soluções, e eu diria soluções rápidas, para mostrar ao mundo a dedicação do Brasil, de todo o país”, disse. “Não somente de um ministério, mas do setor privado, de governadores, dos grupos indígenas. Esse é um projeto da sociedade e não de um ministro ou outro.”

No último dia 9, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciou que o desmatamento na Amazônia bateu recorde pelo quarto mês seguido em junho, atingindo 1.069 quilômetros quadrados. A cifra representa uma alta de 2,7% sobre o mesmo mês de 2020. No acumulado do primeiro semestre, o salto foi de 17% em comparação ao mesmo período do ano passado.

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