Ações do TC perdem gordura pós-IPO

Testes, férias coletivas e outras medidas compõem o Plano de Contingência da empresa para prevenção, controle e redução de riscos de contágio

18/08/2021

Desde que o TC (Traders Club) divulgou seu primeiro resultado trimestral como companhia listada, as ações da empresa só caem na B3. Os papéis perderam toda a gordura que apresentaram na oferta pública (IPO) no fim de julho, com alta de mais de 30%, e ontem fecharam negociados a R$ 7,60 com queda de 20% em relação ao preço fixado, de R$ 9,50.

A companhia é uma das vítimas da baixa liquidez e de uma rotação de carteiras para ativos considerados de melhor qualidade.

Na quinta-feira à noite a empresa reportou lucro líquido ajustado de R$ 1,1 milhão no segundo trimestre, com queda de 8,4% em relação aos três primeiros meses de 2021 e 72,3% menor em comparação ao mesmo período do ano passado. Expurgando-se efeitos não recorrentes, a companhia teve um prejuízo líquido de R$ 2,2 milhões no período.

No release de resultados, a companhia explica que o lucro contábil foi fortemente impactado pelo efeito não recorrente das despesas referentes ao cancelamento do plano de “stock options” no valor de R$ 1,9 milhão. E que por estar passando por um profundo e acelerado crescimento isso impacta toda a estrutura de custos e despesas. “Incluímos o ‘ajuste de growth’ de modo a refletir a real situação do TC, a par da recorrência de tais impactos em nossa estrutura financeira.”

Os investidores não perdoaram e agora o TC experimenta um pouco do próprio veneno, com “torcidas” contra o papel no Twitter e comentários pró-short na sua própria comunidade. É um comportamento que repete o que alguns de seus principais membros faziam com outras empresas.

No Twitter, o perfil @femisapien_z, um dos mais respeitados da chamada FinTwit, escreve ver muita gente torce contra TRAD3, o que descreve como ser contra o empreendedor brasileiro, gente que deu cara a tapa e conseguiu listar em tempo recorde. “Se vc não gosta da empresa, não faça negócios com ela. Torcer contra é mesquinho.”

Em uma das interações, um participante escreve que é feio, mas que entende quem torce contra porque eles “quebraram muita gente com recomendações que pareciam vir de ‘cheerleaders’ do que de analistas. [Rafael] Ferri [um dos principais acionistas fundadores do TC] nos seus stories dizia que era hora de encher a mão de call, etc. Merecem hate.” Outro perfil acrescenta: “imagine todas aquelas pessoas que embarcaram no Vara 30 [referência à Via], Conga 15 [Cogna]? Fora todo apoio a esse desgoverno.”

No prospecto do IPO, entre os fatores de risco a companhia citou eventual saída de Ferri da sociedade caso não haja reversão de uma decisão processual referente a manipulação de mercado. Ele foi proibido pela CVM de atuar direta ou indiretamente em operações de valores mobiliários em 2011, decisão confirmada em 2019 no conselho de recursos do Sistema Financeiro Nacional. Existem duas ações anulatórias ainda pendentes de julgamento. Se perder, Ferri se comprometeu a vender suas ações em até cinco anos.

Na rede TC, um participante diz ter iniciado um “short” no papel logo após o IPO, porque a pessoa física teria comprado grande parte da oferta – o aviso de encerramento ainda não saiu, mas fonte a par da distribuição diz que, na verdade, o investidor institucional ficou com 85% das ações. A leitura de quem entrou no “short” era que o varejo não manteria as ações no longo prazo após fortes correções no Ibovespa, com a tendência de alta de juros e retirada de capital da bolsa.

Essa é uma interpretação similar à de Priscila Araujo, gestora de ações e sócia da Macro Capital. “O que a gente viveu nos últimos meses foi um volume de IPOs muito forte, um processo de euforia e com muita participação da pessoa física. O que está acontecendo com as ações do TC nada mais é do que se vê no resto do mercado como um todo, um processo de realização de lucros.”

A especialista diz ver uma rotação para a renda fixa a partir do momento em que os juros longos encostaram em 10% ao ano. “Há, claramente, uma desalavancagem de todo tipo de investidor, não só a pessoa física, e em especial em papéis de menor liquidez.”

Nesse movimento, ações de companhias de crescimento (“growth”), cujo valor depende muito do desempenho no futuro, sofrem mais que as tradicionais, diz a gestora. É uma dinâmica pela qual passam outras novatas como Multilaser, Mosaico ou GetNinjas, cita. Há quem esteja no mercado fazendo cesta short em companhias que fizeram IPO recentemente para proteger as posições que mais gostam.

Com os juros flertando com os dois dígitos, a tese de investimento em TC se enfraquece à medida que o investidor pessoa física diminui seu interesse por ações. Nos resultados da B3 no segundo trimestre, a bolsa já mostrou desaceleração da pessoa física.

O sócio de outra gestora que comprou ações no IPO diz que muita gente entrou na oferta do TC para “flipar” – quando se compra uma ação no período de reserva e se vende assim que a empresa faz a sua listagem. E, como a liquidez é baixa, a porta de saída ficou estreita. A preferência, agora, é por papéis de maior liquidez.

Oficialmente, o TC não comenta, mas a leitura, segundo um interlocutor próximo, é que a queda das ações resulta da volatilidade do mercado e que outras companhias também estão perdendo. Empresas novatas são mais suscetíveis em comparação àquelas mais tradicionais, em que o investidor está mais acostumado com a dinâmica de resultados.

Araujo, da Macro Capital, diz não ter achado o resultado particularmente ruim porque o TC multiplicou o número de pagantes. “Foi positivo sob a ótica da geração de caixa, mas o volume de investimentos trouxe um lucro mais fraco”, diz. “O que mudou no caso de investimentos em relação a um mês atrás tem a ver com a perspectiva de crescimento da renda variável e da pessoa física na bolsa. O TC é muito atrelado ao interesse da pessoa física.”

Mesmo no desempenho ajustado, depois de uma margem Ebitda de 62% 12 meses atrás, a métrica caiu para 4,9%. Já as receitas líquidas cresceram 60,8% no trimestre e 196% em 12 meses, para R$ 23,2 milhões, sob efeito do aumento do número de assinaturas e o lançamento de planos de maior valor agregado (o TC Premium).

Mas contratações para posições chave na fase pré-IPO reduziram a margem e pesaram no desempenho, disse o CEO do TC, Pedro Albuquerque Filho, quando a empresa divulgou seus resultados na quinta-feira à noite. As despesas operacionais somaram R$ 18,6 milhões no segundo trimestre, com alta de 917% em 12 meses. Aquisições e despesas com marketing puxaram essa conta junto com o aumento de pessoal.

“Foram contratações caras, mas um investimento importante em pessoas que resolvem problemas, C-level, D-level, muito reconhecidas na indústria”, disse Albuquerque.

O TC levantou R$ 606,9 milhões no IPO e as ações estrearam na bolsa no fim de julho. Na oferta, atraiu gestoras de recursos importantes do mercado. Albuquerque disse que havia demanda para fechar a operação no teto da faixa indicativa, a R$ 11,25, mas que preferiu ficar perto do piso a fim de dar espaço para valorização no secundário.

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