Futuro da pecuária de leite passa pela individualização do rebanho com Inteligência Artificial

Como a adoção de novas tecnologias impacta na evolução do segmento

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Futuro da pecuária de leite passa pela individualização do rebanho com Inteligência Artificial
Foto: Reprodução

A tecnologia está transformando a pecuária leiteira de uma atividade baseada em observação e intuição para uma operação orientada por dados. Os impactos mais concretos aparecem em três frentes: reprodução, saúde e eficiência operacional.

Na reprodução, a identificação precisa do momento ideal de cio, considerando o comportamento individual de cada vaca, permite que produtores aumentem significativamente a taxa de concepção. Na saúde, o monitoramento contínuo viabiliza o diagnóstico precoce antes dos sinais clínicos, o que reduz perdas de animais e o uso desnecessário de medicamentos. Na gestão, a tecnologia permite que uma equipe enxuta acompanhe rebanhos que antes exigiriam muito mais mão de obra.

Os números já estão aparecendo nos dados setoriais: segundo o levantamento Top 100 da MilkPoint/ABRALEITE, a produção média diária por animal no Brasil chegou a 36,31 litros em 2026, crescimento de cerca de 5% em relação ao levantamento anterior. Genética e nutrição contribuem para isso, mas a tecnologia de monitoramento tem papel cada vez mais determinante nesse avanço.

Conforme relata o engenheiro mecânico, CEO e confundador da CowMed, Thiago Martins, o cenário atual mostra que o bem-estar animal e produtividade deixaram de ser conceitos concorrentes e passaram a ser diretamente correlacionados. Uma vaca sob estresse térmico, com desconforto ou em processo inflamatório subclínico produz menos, cicla com menos eficiência e responde pior à inseminação. O problema é que esses sinais raramente são visíveis a olho nu no estágio inicial.

“O monitoramento contínuo muda essa lógica: ao acompanhar variáveis como ofegação, tempo de ruminação, padrão de atividade e comportamento alimentar em tempo real, é possível identificar situações de desconforto antes que elas impactem a produção ou exijam intervenção veterinária emergencial. O produtor passa a agir de forma preventiva, não reativa. Isso tem um efeito duplo: melhora o bem-estar do animal e melhora o resultado da operação”, explica o especialista.

A individualização no manejo dos animais no processo produtivo

Para Martins, a individualização no manejo dos animais talvez seja o ponto mais importante da transformação que a Inteligência Artificial está trazendo para a pecuária, uma vez que, durante muito tempo, o monitoramento funcionava por médias de rebanho, o que é útil, mas insuficiente.

O problema, conforme explica o especialista, é que cada animal tem padrões biológicos e comportamentais únicos. Uma queda de 5% na ruminação pode ser irrelevante para uma vaca e ser sinal de alerta para outra. Sistemas que trabalham com parâmetros fixos para todo o rebanho geram dois problemas clássicos: falham em detectar animais que realmente precisam de atenção, ou geram tantos falsos positivos que a equipe passa a ignorar os alertas.

“A inteligência artificial com redes neurais muda isso. Ela aprende o padrão individual de cada vaca ao longo do tempo e detecta desvios em relação ao próprio histórico do animal, não em relação a uma média geral. Individualizar em escala é exatamente o que a IA torna possível, e é o que separa o monitoramento moderno do que existia até poucos anos atrás”, detalha.

Diante disso, Martins acrescenta que os dados são o que permitem transformar percepção em decisão. Sem eles, o produtor age por experiência e intuição, o que funciona até certo ponto, mas não escala e não se sustenta em operações maiores ou em cenários de maior pressão produtiva. Com dados contínuos e individualizados, é possível reduzir o uso de antibióticos, otimizar o uso de ventilação e aspersão e melhorar os índices reprodutivos sem aumentar proporcionalmente os custos. Tudo isso tem impacto econômico e ambiental direto.

“Temos uma base acumulada que já ultrapassa 900 mil animais em banco de dados, um ativo que não existe em nenhum outro lugar do mundo e que segue refinando a capacidade preditiva dos modelos de IA. Quanto mais dados, mais precisa a inteligência. E quanto mais precisa a inteligência, mais eficiente e sustentável é a operação”, relata Martins.

Nesse contexto, ele ressalta que o principal desafio não é mais o ceticismo em relação à tecnologia, pois a maioria dos produtores já entende que ela existe e que outros estão usando. O desafio real é a percepção de retorno: a tecnologia precisa se pagar no campo, de forma visível e mensurável.

“Isso exige que as soluções sejam desenvolvidas para a realidade do produtor, não apenas tecnicamente robustas, mas simples de operar, com suporte próximo e com resultados que apareçam no caixa. Em mercados onde o investimento em inovação ainda é mais seletivo, como parte da América Latina, esse ponto é ainda mais crítico”, comenta.

Ele cita ainda a questão da infraestrutura: conectividade, energia elétrica e acesso a assistência técnica qualificada ainda são barreiras reais em regiões mais remotas. “E há a curva de mudança cultural. Adotar tecnologia significa mudar rotinas, confiar em dados que às vezes contradizem a experiência acumulada. Esse processo leva tempo e exige acompanhamento”, completa o executivo.

Por fim, Martins destaca um dado que merece atenção: o Brasil tem, hoje, uma das maiores bases de dados de comportamento bovino em condições tropicais do mundo. Isso é relevante porque os modelos de IA disponíveis no mercado foram, em sua maioria, desenvolvidos em climas temperados, e o comportamento animal varia com clima, genética e sistema de produção.

“Uma tecnologia calibrada para vacas holandesas em fazendas europeias não necessariamente funciona da mesma forma no Triângulo Mineiro em fevereiro. Essa é uma vantagem competitiva concreta do desenvolvimento tecnológico nacional, e um argumento para que o Brasil não seja apenas grande produtor de alimentos, mas também exportador da inteligência que move essa produção”, finaliza o especialista.


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