Mania Nacional: O fantasma do protecionismo e a conta que chega ao trabalhador
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Na esteira dos conflitos na Europa Oriental e da escalada de tensões no Oriente Médio, assistimos hoje a um profundo rearranjo do comércio internacional. Esse movimento já havia começado com o acirramento da disputa entre Estados Unidos e China, mas ganhou contornos de urgência com as guerras. A busca das potências ocidentais para repatriar investimentos e retirar plantas produtivas da Ásia — um fenômeno conhecido como nearshoring — está reconfigurando as rotas do dinheiro global.
Por aqui, no entanto, essas pressões externas parecem apenas ter reacendido o nosso velho e conhecido fantasma do protecionismo. Trata-se de um discurso presente desde os primórdios da República, consolidado na política de substituição de importações: a ideia de que o governo precisa “cuidar” da indústria nacional por meio do fechamento relativo da economia.
Vamos a um exemplo prático: a apelidada “taxa das blusinhas”. Em janeiro de 2026, com a cobrança a pleno vapor, a arrecadação governamental sobre essas pequenas importações subiu expressivos 25% em relação ao ano anterior, batendo a casa dos R$ 425 milhões. O verniz do discurso oficial fala em “proteger o emprego nacional”. A realidade, contudo, cobra a fatura diretamente do bem-estar do trabalhador.
A proteção prolongada de setores com baixa competitividade internacional, por meio de barreiras alfandegárias, tende a elevar o custo de vida ao restringir o acesso a bens mais baratos. Retira-se do cidadão parte de seu poder de compra para sustentar estruturas produtivas pouco eficientes e, simultaneamente, reforçar o caixa de um governo já pressionado fiscalmente.
Esse mesmo roteiro de transferência de custos se repete no mercado de combustíveis. Com o mundo atravessando crises geopolíticas severas, que pressionam o preço do barril de petróleo, o discurso mais imediato aponta para o mercado externo e para a dependência de importações. Surgem, então, propostas de nacionalização forçada da produção e de investimentos estatais de grande escala.
Mas essas respostas raramente atacam a raiz do problema: a distorção tributária brasileira.
Basta olhar pela fronteira. Países vizinhos, como o Paraguai, são destinos frequentes de brasileiros que cruzam a ponte para encher o tanque pagando muito menos. O detalhe é que o Paraguai possui produção nacional de combustíveis quase insignificante. A maior parte do que consome é importada e também sofre as mesmas oscilações do barril no mercado internacional. Ainda que fatores logísticos, cambiais e regulatórios também exerçam influência, a diferença central de preços na bomba permanece sendo a carga tributária significativamente mais baixa. É a complexa e pesada estrutura de impostos no Brasil um dos principais vetores do nosso elevado custo de vida.
Esses dois exemplos ilustram uma mesma dinâmica. Quando grupos pouco competitivos pressionam por proteção e encontram um Estado com forte necessidade de arrecadação, o resultado tende a ser a transferência de renda do consumidor — sobretudo o de menor renda — para sustentar esse arranjo, comprimindo seu poder de compra.
Mais uma vez, legisladores e governantes voltam os olhos para o passado, dando sobrevida a um modelo de desenvolvimento que teve utilidade histórica pontual, mas que se mostra disfuncional na economia global atual. As modernas cadeias globais de valor substituíram, em grande medida, a ideia de que um país precisa produzir internamente a maior parte dos bens que consome.
A discussão sobre a integração do Brasil a esse ambiente produtivo mais dinâmico não avança por um motivo conhecido: o chamado “Custo Brasil”. Nossa estrutura de impostos e burocracia é suficientemente onerosa para dificultar a inserção do país em cadeias produtivas globais mais integradas. Isso nos aprisiona em um paradoxo. Somos, com mérito, uma potência global na exportação de commodities graças à eficiência do setor primário. Mas agregar valor industrial a essas riquezas internamente implica enfrentar um ambiente de custos que frequentemente torna o produto nacional pouco competitivo frente aos concorrentes externos.
Nesse meio tempo, seguimos perdendo oportunidades relevantes de inserção mais qualificada na economia global. Momentos que poderiam ampliar a capacidade produtiva do país esbarram em um ambiente institucional ainda marcado por baixa competitividade e elevada intervenção. O resultado é um país que permanece relativamente isolado dos fluxos mais dinâmicos de investimento, enquanto seu setor produtivo arca com o peso de uma estrutura estatal onerosa.
O mundo exige respostas rápidas e estratégicas para os próximos anos. A nossa, até aqui, caminha na direção de maior fechamento relativo, preservando entraves que dificultam um salto mais consistente de desenvolvimento.
Para coroar esse quadro, o debate público recente avança na direção oposta ao que seria necessário. Em vez de priorizar o alívio tributário e a simplificação regulatória como formas de destravar a produção, multiplicam-se sinais de novos aumentos de impostos. Ao ampliar ainda mais o já elevado “Custo Brasil”, o Estado reforça seu papel como principal apropriador da renda gerada, pressionando justamente trabalhadores e empresas que sustentam a atividade econômica.