Setor de uva inicia janela de exportação com otimismo pelo acordo com a UE, mas preocupação com a qualidade
Acordo Mercosul-UE promete competitividade, mas desafios climáticos afetam a oferta inicial
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A abertura da primeira janela de exportação de uvas do Brasil ocorre em meio a percepções divididas no setor. De um lado, a formalização do acordo Mercosul-União Europeia gera expectativas positivas e tende a impulsionar as vendas externas, já que as tarifas sobre a fruta devem cair de 14% para zero com a entrada em vigor do tratado. Por outro, ainda há preocupações relacionadas à qualidade do produto neste início de temporada.
“O microclima predominante na região, marcado por alta umidade relativa e temperaturas elevadas, favoreceu o aparecimento de diversas doenças, como glomerella, podridão e míldio, que comprometeram a qualidade e reduziram a oferta disponível”, explicam os analistas do Cepea.
De acordo com agentes de mercado ouvidos pelo Hortifrúti/Cepea, persistem “incertezas quanto ao volume inicial destinado a esta janela, já que ainda são encontrados lotes com qualidade inferior aos padrões exigidos para embarque, reflexo das oscilações climáticas e do excesso de chuvas anteriores, o que pode dificultar a liberação durante as inspeções”.
Nesse contexto, técnicos do Cepea projetam que os embarques de uva avancem de forma gradual ao longo de abril, embora ainda possam ficar abaixo dos volumes registrados no mesmo período do ano passado.
Dados da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados) indicam que, no primeiro semestre de 2025, o país exportou 10.381,58 toneladas da fruta, sendo 2.385,7 toneladas somente nos dois primeiros meses. Já em 2026, o volume acumulado entre janeiro e fevereiro soma 1.706,8 toneladas.
As estatísticas da entidade também mostram que, das 62.251,88 toneladas exportadas pelo Brasil ao longo de 2025, 44,9% tiveram como destino os Países Baixos (Holanda), principal porta de entrada para a União Europeia, além de 1,5% para a Irlanda e 1% para a Espanha.
A expectativa do setor é de que a ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia amplie ainda mais esse mercado, considerando que a tarifa para a uva brasileira deve cair dos atuais 14% para zero assim que o tratado passar a valer.
“As informações são de que esse acordo começar a vigorar dia primeiro de maio e vai ser muito positivo. Hoje nós pagamos de 8 a 14% na uva e vamos pagar zero. Isso vai nos dar condições de concorrer igualmente com a África do Sul, com a Califórnia e com o Peru, que hoje já mandam para a União Europeia e não pagam nada”, afirma Guilherme Coelho, presidente da Abrafrutas.
“A expectativa é grande, a gente sabe que vai começar a vigorar, então para algumas frutas que fazem a Europa nesse primeiro semestre pode ser bastante relevante, porque a gente vai crescer muito em competitividade. Isso significa saúde para o setor e é o momento de a gente colocar essas discussões in linha, já programar embarques pensando com esse tipo de colocação. A uva tem safra agora abril e maio, geralmente tem uma safrinha pra Europa. Se o clima permitir, a gente vai fazer. Dentro do conjunto de frutas que estão elencados no acordo, a uva é a zero a partir do primeiro dia que o acordo passa a vigorar. Então a gente está falando em já poder aproveitar totalmente o benefício do acordo, 100% da isenção já a partir de maio, o que é decisivo para a uva”, avalia Júnior Silveira, sócio-diretor da Xportare.
O Vale do São Francisco, localizado entre Bahia e Pernambuco, concentra grande parte da produção nacional de uvas e deve ser um dos principais beneficiados com o novo cenário. Em Petrolina (PE), produtores já começam a se organizar para aproveitar as oportunidades comerciais que devem surgir.
“É um pleito que há muito tempo o produtor esperava, porque a uva brasileira sofre uma tarifação muito pesada no continente europeu. Agora com esse acordo com a União Europeia, a gente vai ter uma isenção dos impostos. Vai aumentar bastante a questão da rentabilidade do produtor brasileiro, o que é uma coisa extremamente importante”, analisa Marcelo Faria, diretor da Coopa (Cooperativa Agrícola de Petrolina).
“Em forma geral, o Vale do São Francisco destina entre 75 e 85% da uva para o mercado interno e os 15% restantes para exportação. Mesmo assim somos o principal polo de exportação de uva de mesa, assim como de manga, e essa redução de praticamente 14% para 0% vai ser um grande benefício para a gente. Vamos entrar na mesma concorrência que outros países como Peru, Chile e África do Sul, vai ser de igual para igual. Tem um grande potencial de a gente aumentar os nossos nossos envios para lá porque claramente vão ter um benefício financeiro. Sem dúvida é um ganho muito bom para o Brasil e para o nosso Vale São Francisco. Esse balanço de exportação e mercado interno pode também ser alterado, já que vamos ter um grande incentivo financeiro para aumentar esse volume”, relata Cristhian Diaz, gerente técnico comercial da Coopexvale (Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco).