Os impactos dos antimicrobianos na agropecuária
Por que o futuro da produção animal depende de bem-estar e da sustentabilidade?
Foto: Reprodução
O debate sobre antimicrobianos na agropecuária se conecta de forma cada vez mais nítida à agenda ambiental e climática. Sistemas produtivos que dependem fortemente de insumos químicos e medicamentos tendem a ser mais vulneráveis, menos eficientes e mais poluentes.
As discussões da COP30, encerrada em 22 de novembro, ofereceram uma oportunidade renovada de trazer o tema para o centro da agenda climática e trouxeram ênfase na defesa por transições justas e inclusivas, que levem a uma só saúde, considerando novas promessas de financiamento e propostas de mecanismos globais para restaurar terras degradadas.
Segundo alerta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) os sistemas agroalimentares continuam recebendo apenas uma fração do financiamento climático necessário. “No Brasil, o setor pecuário enfrenta pressão crescente para adotar modelos de baixa emissão, como pecuária regenerativa, maior eficiência alimentar e melhor monitoramento ambiental, além de avançar em sistemas agroflorestais e práticas que integrem saúde animal e adaptação climática”, destaca a diretora-executiva da Colaboração Brasileira de Bem-Estar Animal (COBEA), Elisa Tjarnstrom.
Ameaças para o segmentoFalar sobre sustentabilidade na pecuária é também falar sobre sanidade, bem-estar e uso responsável de antimicrobianos. A transição para sistemas mais saudáveis, baseados em prevenção e não em correção, está diretamente ligada à capacidade de adaptação da agropecuária às mudanças climáticas.
O uso de antimicrobianos na produção animal tem se tornado um dos temas mais sensíveis e estratégicos da agropecuária moderna. O que antes era visto como ferramenta essencial para garantir produtividade e prevenir doenças, hoje é questionado por seus impactos na saúde pública, no meio ambiente, na imagem e até mesmo na resiliência do setor quando se pensa em resistência aos antimicrobianos. No Brasil, embora o tema tenha ganhado força nas políticas públicas e nas discussões setoriais, ainda há desafios importantes a serem superados para reduzir o uso excessivo e avançar na transparência dos dados.
Em relação aos perigos do uso dos antimicrobanos para a evolução sustentável da pecuária, a diretora destaca que os riscos são generalizados e estão relacionados ao que é considerado uma das maiores crises de saúde da nossa época: o aumento de bactérias resistentes/multirresistentes. “Como a maioria dos antimicrobianos é utilizada na produção animal, a reputação do setor está em jogo, e é fundamental que ele seja visto como responsável e que trabalha ativamente pela redução do uso e da dependência dessas substâncias. Para que o setor cresça, precisa ser visto como saudável e sustentável para o futuro, fazendo a sua parte na resolução desse risco global à saúde”, alerta Elisa.
Pensando lá na frenteNa avaliação da diretora-executiva, as exigências por práticas sustentáveis e responsáveis estão crescendo constantemente e as demandas relacionadas ao uso de antibióticos só aumentarão para o setor, principalmente nos mercados de exportação. Diante dessa pressão, é importante que o setor possa se adaptar e aprimorar práticas que tornem os animais mais robustos e saudáveis, o que está intimamente ligado à importância de boas condições de bem-estar animal.
Nesse cenário, segundo ela, para enfrentar os principais desafios do setor é preciso melhorar as condições da criação – instalações, práticas e manejo – para que os animais se mantenham saudáveis. “Já há um consenso que o estresse impacta negativamente no sistema imunológico dos animais, e a alta densidade e pressão sanitária aumentam a necessidade de uso de medicamentos. O desafio principal é diminuir a demanda por uso dos antimicrobianos. Ou seja, é preciso reduzir as práticas inadequadas que prejudicam a saúde e o bem-estar dos animais para que essas condições sejam melhoradas”, observa.
Ainda em relação ao futuro do setor, Elisa ressalta que boas práticas de gestão e manejo são cruciais para conseguir uma boa produção com animais saudáveis e com bem-estar satisfatório. Além disso, as novas tecnologias podem ajudar bastante, como, por exemplo, no monitoramento e na prevenção de doenças, situações nas quais os animais são observados para intervenção rápida, a tempo da aplicação de outras medidas necessárias.
Por fim, ela relata ainda que uma pecuária que depende menos de antimicrobianos é mais respeitada e mais resiliente para o futuro. “Em termos do uso de antibióticos, um melhor monitoramento de dados é necessário para poder implementar as medidas necessárias de uso prudente e redução. O futuro da produção animal será medido não apenas pela quantidade que produzimos, mas pela forma como produzimos. Sistemas que colocam o bem-estar no centro e reduzem a dependência de antimicrobianos são mais alinhados às demandas do século 21: transparência, saúde, clima e ética”, finaliza.