Fred Almeida

Consultor de Sustentabilidade


Quem está preparado para a revolução ESG?

01/11/2021

Quem está preparado para a revolução ESG?

As transformações e avanços civilizatórios impulsionados pela busca de soluções para impedir o aquecimento global, e a desestabilização que ele provoca nas cadeias produtivas, nas relações sociais e na governança, estão provocando no mundo corporativo uma profunda mudança de comportamento. Mais que isso, de mentalidade. Começa a se consolidar e se espalhar os conceitos da ESG, sigla em inglês que quer dizer “environmental, social and governance” (ambiental, social e governança, em tradução livre).

A Era do empreendedor “brucutu”, que aprendeu que o lucro é resultado da depredação ambiental, de uma governança voltada apenas para ganhar mais a qualquer custo e não ter nenhuma responsabilidade social com sua comunidade, ou com o Meio Ambiente de seu entorno, vai mudando (ainda que lentamente) num caminho sem volta. Com a piora das condições climáticas e da qualidade de vida, a tendência é que tais conceitos sejam adotados com mais urgência.

O conceito de ESG começa a se disseminar pelo mundo entre empresas e empresários, embora no Brasil ele ainda esteja dando os primeiros passos. Na medida que empresas e empresários adotam esses novos conceitos de governabilidade, têm melhores resultados financeiros, colaboradores comprometidos com o seu negócio e os benefícios chegam a todos. Para a surpresa de muitos, o desempenho financeiro surpreende, e a marca da empresa fica cada vez mais associada a boas práticas e seus produtos, à credibilidade.

Para administradores centralizadores, moldados no dia-a-dia em uma empresa sólida, é necessário um grande esforço para implantar os novos conceitos. Implica em sair da zona de conforto e eliminar práticas que muitas vezes foram condenadas ao longo da história da empresa. É uma mudança que envolve muito mais do que logística. Difícil reformular a visão dos negócios, suportar o desconforto, a insegurança, incertezas, e abrir mão de práticas que aprendemos como corretas desde a infância.

As empresas que já utilizam os novos conceitos descobriram que negócios comprometidos com tais práticas têm uma operação mais sustentável em diversos aspectos, entre eles o econômico, e na gestão de riscos, gerando melhores resultados ao longo do tempo. Segundo um estudo da Consultoria BCG as empresas que adotam tais práticas são impactadas positivamente com maiores lucros e o veem crescer o seu valor de mercado.

Essa visão de gerir os negócios se expande também no mercado financeiro. Investidores buscam empresas limpas e não analisam apenas balanço financeiro. Eles avaliam a governança, os fatores ambientais envolvidos na operação e a sociabilização interna e externa. 

De onde veio

A sigla ESC, que embute os conceitos para a manutenção da qualidade da vida, surgiu pela primeira vez em 2005 na Organização das Nações Unidas (ONU) em um relatório chamado “Who Cares Wins”, ou Ganha Quem se Importa. A proposta era bem simples: vinte instituições financeiras de 9 países (incluindo o Brasil) se reuniram para descobrir uma forma de agregar as questões ambientais e financeiras, nas relações sociais e na governança de ativos, corretagem e pesquisas. O relatório surpreendeu ao ser concluído com tais conceitos e ser implementado pelo sistema financeiro. Guerra mercados sustentáveis e sociedades equilibradas.

Cada uma das letras que formam a sigla tem um motivo de ser. Ambiental (environmental) envolve não promover o aquecimento global e nem emitir carbono durante sua operação, evitar eliminar resíduos que poluem o ar e a água, promover a biodiversidade, evitar desmatamento para a aquisição de matéria prima, buscar eficiência energética, gerir resíduos e se voltar para a administração da água.

O S (Social) embute os conceitos de como se relacionar com as pessoas do universo da empresa. Satisfação do cliente, proteção dos dados e a manutenção da privacidade, diversidade da equipe, engajamento dos funcionários, relacionamento com a comunidade e, principalmente, respeito aos direitos humanos e às Leis Trabalhistas.

A letra G é de governança e determina critérios internos que refletem junto ao mercado. A composição do Conselho, a manutenção de uma estrutura de auditoria, ter uma conduta corporativa ética, a remuneração dos executivos, a relação com outras corporações, entidades do governo e autoridades, além de um canal de denúncias.

O olho do Mercado Financeiro

Por incrível que pareça essas três palavras embutem conceitos que podem transformar a vida das pessoas, os ambientes corporativos, as relações sociais e incrementar a qualidade de vida com lucros advindos de uma atividade que preserva relações sociais e Meio Ambiente. A tal ponto de despertar o interesse do próprio mercado financeiro em todo o mundo.

Os novos investidores estão de olho nas práticas ambientais, sociais e de governança das empresas. Sem isso, não há investimentos. Grandes Fundos de Pensões e de Investimentos estabeleceram impedimentos em negócios que não tenham esses conceitos em seu gerenciamento. A pandemia obrigou as empresas a reverem suas estratégias e a fazer grandes investimentos em ESG. Pesquisa global da Consultoria MSCI indica que 77% das empresas aceleraram investimentos para se adaptar.

Sem fazer uma reengenharia e sem esses conceitos, empresas vão ficar à margem do sistema financeiro e das fontes de investimentos.

Os investidores já identificam empresas que investem em ESG. Existe a figura dos Fundos dos Fundos (FoF) que destina parte do capital para ações sustentáveis com investimento em renda fixa. Foram identificados 14 debêntures e 6 Certificados Recebíveis Imobiliários com reservas de R$ 6 bilhões investidos em ESG.

Existem também outras categorias de investimentos. A emissão de Títulos Temáticos ESG. Ele atrai capital para projetos com impacto socioambiental positivos. Hoje são os Títulos Verde, o Título Social e o Título de Sustentabilidade. Também podem expedir Títulos Vinculados à Sustentabilidade. Para isso, tem que ter 100% de energia elétrica renovável até 2025 e reduzir as emissões de gases poluentes em 30% até 2040.

Brasil

Ao contrário que se propaga, de que o Brasil demora a encampar novas políticas e conceitos, nós somos um país extremamente ágil, uma das maiores e mais sofisticadas economias do mundo e um dos países mais conectados do Planeta. Absorvemos com rapidez e agilidade, todos os avanços tecnológicos e comportamentais. Tanto as pessoas físicas como as pessoas jurídicas. Portanto, por necessidade financeira, manutenção do negócio ou estratégia de marketing, o conceito se espalha. Principalmente em um país cuja maior discussão é a manutenção de seu Meio Ambiente e a melhora da vida de seus habitantes.

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