Fabiano Reis

Jornalista, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial


Pecuária bovina de corte: bons preços, ótima demanda externa e custos desafiadores

15/03/2022

Pecuária bovina de corte: bons preços, ótima demanda externa e custos desafiadores Preço da carne bovina tem alta de 0,8% no mercado varejista na primeira quinzena de março (Foto: Agência Brasil)

Uma semana que começa com boas notícias e algumas preocupações. O Canadá vai comprar carne suína e bovina brasileira, agora são mais de 200 mercados abertos sob a liderança da ministra Tereza Cristina e não é pouca coisa. Ao mesmo tempo, fica cada dia mais claro que haverá dificuldade com alguns insumos e alimentos para o gado no ano de 2022 com a guerra da Rússia. Os valores para arroba do boi gordo, padrão China, estão em R$ 360 por arroba, mas com forte diferença para os animais não exportados.

A segunda-feira teve muitas comemorações, principalmente pela cadeia produtiva da carne suína, o anúncio feito pela Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, sobre a abertura do mercado do Canadá para as exportações brasileiras de carne bovina e suína teve um impacto muito positivo. De acordo com a ministra em vídeo gravado para TVs e redes sociais, o Canadá não tem imposto de importação para suínos, é um mercado que pode ir além do Market share brasileiro. No caso da carne bovina, existe uma alíquota de 26,5% de importação, mas podemos ter acesso àquele mercado via uma quota da OMC de 76,4 mil toneladas com tarifa 0.

Na oportunidade da viagem a ministra esteve mesmo tentando encontrar soluções para o abastecimento de fertilizantes e insumos no Brasil. Um cenário que fica cada vez mais  desafiador, seja por conta  do abastecimento  de NPK, para a agricultura brasileira ou, ainda, ureia e amônia. Com as sanções econômicas à Rússia, a falta do gás daquele país, a fabricação dos dois últimos produtos citados praticamente parou na Europa. Os preços da ureia, por exemplo, estão até 450% mais altos, só para citar um elemento que choca a pecuária brasileira.

Estive conversando com alguns especialistas do mercado de fertilizantes em meu programa (AgriculturaBR) no Canal do Boi e a percepção de novas altas e dificuldades na aquisição e logísticas são altas. A safra nos Estados Unidos, 2022/23, que será plantada logo após o degelo nas regiões frias, está com seus insumos garantidos, comprados e alocados nas regiões de produção. A Europa tem parte dos seus insumos nos países produtores. Quem não tem é o Brasil.

Neste caso, falar de soja é importante. O Brasil, maior player do mercado internacional (produção e exportação), precisa estar pronto para semear em setembro, o que quer dizer a compra e chegada de insumos precisam ser resolvidas até lá. Falta pouco tempo e a única certeza é de um custo de produção mais elevado. Também, com mercados importantes na produção de trigo e milho, Ucrânia  e  Rússia, fora da produção (Ucrânia não vai conseguir plantar) o milho segue o preço alto no mundo todo, mesmo no Brasil, onde os preços já deveriam ter caído com o andamento da semeadura do cereal.

Neste cenário, a pecuária é afetada por alta nos preços dos grãos, em seus custos de produção. De uma maneira mais direta a ureia começa a ficar escassa no mundo e os preços disparam. Comparada aos preços de janeiro de 2021, os valores sobem 430% e chegam a 900 Euros por tonelada. Um alerta forte para os países que não produzem fertilizantes.

Quanto ao preço dos bovinos, a semana começou devagar, com uma segunda-feira típica de poucos negócios. Os preços estão em R$ 349 por arroba em São Paulo (picos de R$ 360); valores médios de R$ 318/@ em Mato Grosso do Sul.  Por outro lado, o mercado doméstico não ajuda. O consumo interno segue bem abaixo do que poderia, Apesar de ter havido um ensaio de recuperação econômica para o brasileiro médio e, com isso, uma elevação na aquisição de carne bovina. O acumulado de inflação aponta para um cenário muito desafiador agora, principalmente depois do fator geopolítico causado pela invasão russa à Ucrânia. Inegável. Os efeitos negativos, principalmente inflacionários, são evidentes e vão seguir atuando.

A percepção atual é de mercado do boi gordo estável, com bons momentos para quem tem gado padrão China e custos mais elevados durante o resto do ano.

 

 

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