André Luiz Casagrande

Jornalista especializado em agronegócio


Parceria que dá certo

01/04/2022

Parceria que dá certo (Foto: Agência Brasil- Divulgação)

O Programa Boas Práticas Hídricas, um dos maiores do mundo em gestão da água na produção leiteira, tem muito que comemorar. Seja pelo aumento do número de propriedades que aderiram à proposta, que já superam 1.400 fazendas, seja pela economia de água, que entre 2020 e 2021 foi de 56 milhões de litros.

O programa, desenvolvido em parceria pela Embrapa e Nestlé, começou em 2018 com o monitoramento de 20 propriedades leiteiras. De 60 fazendas pilotos, em 2020, saltou para 1.400, no ano seguinte, e a expectativa é chegar ao fim de 2022 com 1.500 fazendas, todas fornecedoras de leite para a empresa. 

Segundo Julio Palhares, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, no mesmo período, ocorreu um crescimento na produção de leite e no número de vacas em lactação e uma queda no consumo de água. “Conseguimos aumentar o número de cabeças e a produção, utilizando menos água. A redução foi de 5,5 litros de água para 4,5 litros por litro de leite produzido”, relata o cientista. “Essa economia é fruto de um ganho de eficiência”, analisa.

Tudo começou com o convite aos produtores para aderir ao programa e instalar pelo menos um hidrômetro nas propriedades, com o objetivo de medir o consumo de água na atividade leiteira e relatar esse número pelo menos uma vez por mês para a Embrapa. 

Com relação às tecnologias utilizadas, a primeira abordagem, desde o início, mostrou que água é um recurso escasso e tem muito valor. “Mesmo quando não há um gasto mensal com a conta de água na propriedade rural, todo mês ela tem um custo. Na maioria das vezes, a energia elétrica é utilizada para movimentá-la, e esse insumo cada tem um peso significativo no custo de produção do leite”, argumenta o pesquisador.

Para mudar a cultura sobre o valor da água e destacar a importância de economizar esse insumo, a pesquisa orientou, por exemplo, a fazer a raspagem do chão, antes de lavar uma sala de ordenha e utilizar mangueira de alta pressão. “São práticas simples que dão um resultado muito significativo”, explica.

Também difundiu tecnologias de maior complexidade. Segundo Palhares, como existe uma relação direta entre o que o animal come e o quanto de água ele bebe, a gestão nutricional é parte da gestão hídrica. “Uma nutrição tecnicamente orientada, respeitando a categoria e a curva de lactação do animal, resultará em menor consumo de água no bebedouro”, ensina Palhares. 

Ele lembra também que atualmente muitos produtores utilizam irrigação das pastagens nas propriedades leiteiras. “Essa tecnologia deve ser realizada considerando todos os preceitos técnicos, conciliando a umidade do solo com a condição climática e a necessidade da cultura para que seja utilizada a quantidade de água necessária para cada cultura, nem mais nem menos”, pondera.

Outra tecnologia difundida no programa é a captação de água da chuva e o seu armazenamento em cisternas, para lavagem de piso, por exemplo, ou mesmo para uso mais nobres, como o consumo humano ou animal. “Neste caso, deve-se fazer uma análise da qualidade dessa água e, se necessário, realizar algum tratamento antes de utilizá-la”, recomenda o pesquisador.

Agora, o experimento vai levar as boas práticas hídricas e de resíduos para 20 fazendas piloto escolhidas, localizadas em Goiás, São Paulo e Minas Gerais, estados em que a empresa tem fornecedores. “Elas servirão como vitrines para que as outras propriedades vejam o que pode ser feito, o que dá certo, e repliquem as experiências nas suas fazendas”, diz Palhares.

As propriedades escolhidas foram visitadas pela Embrapa que gerou um relatório de intervenções na parte hídrica e no manejo de resíduos. Os 20 produtores terão prazo de quatro a seis meses para realizar os ajustes. “É um trabalho minucioso, de maior precisão, não tem como fazer isso nas 1500 propriedades”, explica o pesquisador. 

Conforme explica, a proposta é mostrar, através de vídeos, visitas técnicas e dias de campo, que é possível realizar a gestão hídrica e de resíduos em qualquer propriedade, respeitando o sistema de produção, o manejo gestacional, sanitário e manejo reprodutivo.  “A ideia é massificar o uso das boas práticas.”.

Palhares lembra que esse é um trabalho de parceria que envolve a pesquisa, a agroindústria e os produtores. “Com vários atores envolvidos por um objetivo comum, que é melhorar a gestão hídrica na atividade leiteira, as coisas vão acontecer de forma mais rápida e abrangente, o que seria diferente se só a ciência tentasse fazer sozinha ou a indústria ou produtor na sua propriedade”, afirma. “A parceria entre ciência, iniciativa privada e produtores é sempre muito bem-vinda.”.

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