André Luiz Casagrande

Jornalista especializado em agronegócio


Os nós da inteligência artificial

22/04/2022

Quando se fala em avanços tecnológicos, a Inteligência Artificial (IA) figura no topo da revolução da indústria 4.0 como um habilitador essencial na produção de carne, seja nas etapas de engorda do boi, seja na etapa de corte do animal. Seus benefícios são amplos e incluem a minimização das perdas e o controle de qualidade da carne que chega ao consumidor.

A afirmação é de Thiago Mascarenhas, head de Dados e Arquitetura da Engineering, consultoria global especializada em transformação digital. “Estamos vivendo em um mundo extremamente focado em ações ambientais e existe uma ligação direta em relação à proteína da carne e o custo ambiental envolvido na sua produção”, diz o executivo.

Nessa linha, Magalhães destaca a ESG como um tema forte, que vem dominando a cabeça dos principais CEOs das empresas do setor que firmaram a meta zero das emissões de Carbono. Apenas para ilustrar, ESG é a abreviação de Environmental, Social and Governance. Este conceito é usado para mensurar as práticas ambientais, sociais e de governança de uma empresa.

Para o executivo, uma coisa que pode ajudar nesse conceito é a produtividade. “Quando eu tenho uma produtividade alta, traduzida em mais proteína por quilo do animal, eu estou falando da inteligência artificial atuando na composição e na construção genética dos reprodutores”, comenta.

O mesmo raciocínio vale para o processo de produção de alimentos específicos e também na fase de corte, para obter mais proteína por quilo abatido. “Assim eu consigo, de fato, colocar o processo produtivo em níveis elevados com a ajuda da tecnologia.”

Mas nem tudo são flores no universo da IA. Nessa linha, Magalhães aponta a existência de alguns gargalos para a implementação da inteligência artificial na cadeia produtiva da carne como um todo. O primeiro deles, na opinião do executivo, é a dificuldade em disseminar a cultura dessa tecnologia para os pequenos produtores.

“Certamente, no mercado bovino, há produtores muito grandes, que realmente têm acesso a caminhos e a recursos financeiros para aderir às tecnologias. Já no caso dos pequenos, como os proprietários de granjas, por exemplo, muitos não têm essa facilidade”, compara.

Por essa razão, o executivo da Engineering considera importante que as empresas passem essa cultura top down para os produtores como um todo. “O governo e as agências, como a Embrapa, têm iniciativas bacanas, como os hackathons, trazendo bem forte o tema inovação, tecnologia e IA, mas ainda há um problema de recursos, de cultura”, observa.

Quando o assunto é 5G, a tecnologia da quinta geração, Magalhães afirma que há muita disparidade, até porque, em muitos lugares do Brasil, as fazendas não têm acesso nem ao padrão 3G. “Isso deve ser superado porque, para ser integrada, uma empresa precisa ter essa conectividade. Quanto mais conectada, mais acesso aos serviços prontos”, pondera.

O executivo também menciona um gargalo relacionado ao déficit de pessoas com conhecimentos em TI e em dados, assim como de cientistas de dados eficientes. “Essa situação existe mesmo na indústria da TI, em grandes capitais, imagine em locais afastados, como nas fazendas de Mato Grosso e Pará, onde a conectividade é um problema, assim como há falta de pessoas para atuar nessa área”, questiona ele.

“E, por fim, há um problema de recursos, o que exige uma ação governamental mais direta, com foco na produção de TI e, principalmente, de IA e de dados. A questão é como isso pode ser monetizado para que essa expansão chegue aos produtores, de forma a tornar toda a cadeia digital e inteligente”, arremata.

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