Fabiano Reis

Jornalista, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial


Mercado exportador e doméstico: distância cada vez maior

22/03/2022

Mercado exportador e doméstico: distância cada vez maior Mercados externos e internos tem diferenças cada vez maiores (Foto: Agência Brasil)

Há vários meses tenho escrito em nossa coluna, “De Olho no Mercado”, sobre as diferenças hoje encontradas no mercado pecuário brasileiro. A distinção, tem se convertido em uma forte lacuna entre os preços pagos na arroba do gado pronto para produção de carne bovina a ser exportada para a China e arroba de gado a ser abatida para consumo do cambaleado mercado doméstico brasileiro. Elementos que trazem distanciamento entre as praças de negociação no país.

Não obstante, e sem querer polemizar um tema já bastante polêmico, a diferença entre os preços pagos tem quebrado recordes semana a semana. Fruto direto da disputa entre indústrias exportadoras para suas formações de escalas. Há uma grande busca do parque industrial paulista por matéria-prima em outros estados, os resultados são de um faturamento recorde mensal nas exportações e uma expectativa de receita recorde no primeiro trimestre do ano.

O ano de 2022 começou com fortes valorizações para o mercado do boi gordo brasileiro, fato inegável. Também é “inegável” o empobrecimento da população e a redução do consumo de carne bovina no país. Costumo escrever que o mercado doméstico brasileiro é um dos principais do mundo, mas os cenários trouxeram uma enorme dificuldade para aquisição por parte relevante da população brasileira. Como a maior parte da carne bovina produzida fica em território nacional, temos muitos movimentos de alta que não são compartilhados por todos os pecuaristas e mesmo por indústrias. Para ser franco, quem se lembra de artigos publicados em dezembro de 2021 e janeiro deste ano, tivemos este momento “compartilhado”. Depois disso, o distanciamento ficou cada vez mais evidente.

Do ponto de vista econômico, ao analisar uma moeda, de certo modo, instável, como é o Real, sempre sujeito a turbulência política presente no país, também de decisões complicadas como reduções bruscas de taxas de juros, seguidas de elevações com a mesma intensidade. O resultado, uma enorme volatilidade. Portanto, para usar o faturamento em “Real” como indicador, precisa de muito cuidado.

O resultado em Real que quero citar é uma projeção do faturamento das exportações de carne bovina. O primeiro trimestre de 2022 pode ter uma receita em moeda nacional em alta de pouco mais de 80% comparado ao mesmo período do ano passado e atingir neste ano R$ 16,100 bilhões. O uso apenas para comparar 2021 e 2022, qualquer outra equação precisa ter um parâmetro bem definido como o dólar ou deflacionar os valores.

Com o cenário descrito acima, devemos ter pelo menos mais duas semanas em compasso de mercado lateralizado com o boi gordo em São Paulo e uma contenção nas reduções nos valores pagos em outros estados brasileiros. A indústria fez, há quinze dias, propostas melhores, estabeleceu escalas um pouco mais expressivas e, agora, pressionam os preços negativamente, como vimos na última semana. Tudo normal. Sem novidades neste aspecto.

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