Fabiano Reis

Jornalista, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial


Mercado do boi gordo: Fêmeas também indo para o abate no segundo semestre

19/07/2022

Mercado do boi gordo: Fêmeas também indo para o abate no segundo semestre Abate de fêmeas deve aumentar graças a desvalorização do bezerro. (Foto: Agência Brasil)

Se há algo no mercado da pecuária bovina de corte do Brasil que merece atenção é ser preciso uma sensibilidade mais estreita e plural quanto aos seus parâmetros. Falo da oferta de gado pronto neste semestre, que deve apresentar elevação frente aos anos anteriores, um resultado direto da retenção de fêmeas que, fatalmente, traz fatos novos para o mercado.

O número é difícil de lançar. Tentei várias associações de criadores, números das principais instituições de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, para começar, mas sem sucesso. Entretanto, há um fundamento que é possível observar e, pela lógica, costuma apontar a maior ou menor disponibilidades de fêmeas. O preço do bezerro.

Sim. O preço do bezerro recuou, base Mato Grosso do Sul, nelore, de oito a doze meses, uma queda de 25,2% entre junho de 2021 e o mesmo mês no ano atual. Queda de R$3.328,8 para R$2.490,17. Os números são do Indicador ESALQ/BM&FBovespa. Não se trata de mera observação, mas de um claro indicador que mostra alguns cenários para operadores de mercado.

Então, basicamente, a maior quantidade de fêmeas retidas trouxe um maior volume de bezerros para o mercado, resultando em preços mais baixos para a categoria inicial. Os desdobramentos devem nos colocar em dois cenários que estão ficando mais claros. A oferta de gado pronto neste segundo semestre e primeiro semestre de 2023 deve ficar mais robusta. A observação que faço é baseada em preços menores para animais de cria, desmotivando a manutenção de todo o contingente de fêmeas nas fazendas. Parte das vacas irão para o gancho e este fator deve melhorar a oferta e escala industrial. É uma linha de tendência, não significa uma matança acelerada de fêmeas, mas uma parte será abatida seguramente.

Ficar “De Olho no Mercado” exige algumas atenções em qualquer tipo de produção, seja de grãos ou de animais, em especial aos elementos de produtividade, estoque e capacidade de produção. O ciclo pecuário buscou, nos dois últimos anos, reter mais fêmeas (mesmo com um ótimo preço para o abate) pois o valor do bezerro estava lá em cima. O fator elevou a produtividade na cria, aumentou os estoques em fêmeas e seguramente levantou a produção.

Não há nenhum cenário que indique recuo para preços de forma mais expressiva, mas é sempre importante observar o fator de demanda. E lá, na demanda externa, vejo um bom horizonte. A China, mesmo com recuperação do seu rebanho suíno, segue comprando carne bovina e com bons preços; outros mercados relevantes também têm mostrado ótima presença junto ao produto brasileiro, como as importações norte-americanas. Os embarques brasileiros para países da Liga Árabe tiveram no primeiro semestre do ano uma elevação de 52% nas receitas e 21,5% no volume. 

Enfim, eu vejo demanda por toda parte.

E quer saber? Vejo também no mercado doméstico. A inflação é alta, a população está em dificuldade, mas a injeção de recursos no mercado brasileiro, somado a uma visível queda no custo dos combustíveis pode trazer uma melhora no consumo interno em várias frentes e até subir o otimismo da população. Do ponto de vista econômico, há o desequilíbrio fiscal em médio prazo, mas os benefícios têm o poder de superar os fatores negativos.

Para visão em curtíssimo prazo, a semana deve ser de novas quedas de braço, com preços tendendo a estabilidade, mas com a volatilidade criada por escalas industriais mais cheias e propostas mais baixas das indústrias frigoríficas.

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