Fabiano Reis

Jornalista, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial


China quer pagar menos pela carne bovina e afirma não ter “pressa”

26/10/2021

China quer pagar menos pela carne bovina e afirma não ter “pressa” (Foto: Divulgação)

Uma semana se passou e pouca coisa mudou na relação Brasil e China quando falamos de carne bovina. Os preços permanecem em recuo da arroba do boi gordo no Brasil e o mercado atacadista em São Paulo segue impactado em queda. Observo também preços mais baixos nas categorias bezerro e boi magro e um mercado interno brasileiro sem referência, afetando toda a cadeia produtiva. E uma coisa é certa: a China vai voltar às compras no Brasil… mas, não será como antes.

Nesta última sexta-feira entrevistei Charles Andrew Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, em meu programa no Canal do Boi. Algumas das percepções que eu tinha sobre a retomada dos negócios entre os dois países se confirmaram. Eu acreditava e ainda acredito no retorno das compras chinesas no começo de novembro. Tang acredita até o final do ano. O presidente da CCBC falou em repactuação com preços menores e de haver volumes representativos de carne suína produzida no país asiático.

Sim, a recuperação do rebanho chinês é um fator determinante neste momento terrível que vive, principalmente, o pecuarista brasileiro. Entretanto, como eu disse em outras oportunidades em nossa coluna, é necessário rever algumas posições estratégicas na pecuária brasileira. Isso passa pela gestão dentro das propriedades rurais, na linha de atuação da indústria frigorífica brasileira, na negociação da representação nacional para conquista de novos mercados e, principalmente, da recuperação da capacidade de compra do consumidor brasileiro.

Sobre a China e seu gigante mercado de carnes, não dá para virar as costas ou não procurar ter participação. É muito expressivo. Trata-se de um mercado que consome 87 milhões de toneladas, com investimento em cerca de US$ 110 bilhões ao ano (total). Contudo, o mundo é bem maior que a China.

Outros fatores falados na conversa com Charles Tang trouxeram algum desconforto. Além da redução na aquisição de compra de carne bovina pretendida por conta da melhora na oferta de carne suína chinesa. Observe:

  1. Com a demora na volta dos negócios “os preços ficaram em patamares mais razoáveis”;
  1. China não tem tantas alternativas entre fornecedores (Argentina e Uruguai, principalmente);
  1. Erradicação da pobreza extrema, produtos de alto valor agregado;
  1. Chineses consumirem apenas seis quilos per capita ao ano;
  1. Governo chinês quer reduzir consumo de carne bovina por fatores ligados à preservação e saúde de sua população.

Escrevo desde o começo de nossa coluna sobre a China tentar repactuar os negócios. Acredito em dois cenários. No primeiro, chineses pressionam os valores pagos por tonelada de carne bovina exportada pela cadeia produtiva do Brasil, sem muito sucesso, já que o preço é baixo frente aos demais exportadores. Em outro, China busca introduzir seus produtos no Brasil já que a balança comercial entre os países é amplamente favorável aos sul-americanos. Eles querem pagar outro valor pelo “Boi China”, e isso é muito claro.

De fato, China não tem de onde comprar. E nestes últimos anos os hábitos alimentares dos segmentos sociais com maior poder de compra de lá começaram a consumir carne bovina. Também muitas empresas do modelo fast food se instalaram no país e demandam um tipo específico de carne – a bovina. Só o Brasil tem a proteína em grande escala e com preços mais acessíveis.

A China sempre faz propaganda de ter erradicado a pobreza extrema. Ok. Isso é ótimo! É mais um motivo para chineses consumirem carne.

A China só consumir 6 quilos per capita ao ano está certo.  Mas, trata-se de uma população com 1,5 bilhão de pessoas que elevou o consumo em 90% nos últimos 10 anos. É muito expressivo, sim!

Sobre a alegação dos fatores “preservação ecológica” e “saúde da população”, o Brasil precisa mostrar sempre seu sistema de produção, em que os animais, em grande parte, estão em áreas extensivas, alimentados a pasto e com apenas a terminação intensiva. Diferente do processo norte-americano, por exemplo. Também precisa mostrar que tem um Código Florestal extremamente rígido. E, por fim, a medicina, os esportes de alto rendimento e os bancos das melhores faculdades mostram diariamente a necessidade de ingestão de carne vermelha. O Brasil e outros países produtores precisam investir o tempo todo em informação.

Para encerrar, espero uma semana de poucas ofertas e, consequentemente, negócios. O mercado parece ter encontrado um piso: em São Paulo os preços do boi gordo não ficam abaixo de R$ 260 por arroba e as fêmeas, depois da queda inicial, têm encontrado estabilidade.

Força, foco e redução de custos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *